Em uma época de forte adesão popular aos
discursos sobre ser politicamente correto, na qual toda e qualquer coisa deve
provar sua utilidade por meio da associação com o que é socialmente bom e
bonito, uma época em que toda pessoa pode participar de tudo o que é
“revolucionário” desde que ligada às redes sociais, mediante um clique com o mouse, mudar o mundo parece fácil
demais. Um elemento importante para isso estaria dado: o interesse popular pela
justiça social.
Se
as revoluções de nossa história mais recente mostram que a participação popular
determina ou não seu sucesso – a russa fracassou por ter sido imposta pela
“elite das massas”, sem o apoio popular para se manter; as primaveras árabes e
as ocuppy têm tido sucesso justamente
por surgir do povo –, a adesão de grande número de pessoas a qualquer movimento
que pareça justo, pode ser enganosa.
As já rotineiras marchas iniciadas por meio
das redes como o facebook – pelo
menos as brasileiras – demonstram que a mobilização popular no mundo real é
muito menor que o número de participantes
do evento criado na web. O seu
poder é grande, mas muito menor do que poderia ser caso houvesse de fato a
participação de todos os que diziam participar.
Aparentemente,
tem ocorrido algo semelhante com o Movimento
Transfira UFOP. Esse movimento,
iniciado por conta de alguns alunos da Universidade Federal de Ouro Preto, tem
como premissas que a transferência dos títulos de eleitor por parte dos alunos
da UFOP para a cidade de Ouro Preto, não só dará mais poder de reivindicação ao
poder publico por parte dos alunos, como conscientiza os estudantes “sobre a
importância da participação política na comunidade onde ele vive” (retirado da carta-proposta do movimento).
É
obvio e qualquer pessoa (notadamente estudantes) concorda que é importante ter
voz ativa com o poder público e que seria muito bom que todos fossem “cidadãos
conscientes” e participativos na vida política de suas comunidades, ainda mais
em uma Universidade na qual a alienação da vida pública parece atingir níveis
mais altos que em outros meios universitários. Desta forma, poderíamos
concordar com o movimento sem maiores problemas. Tampouco aqui, não é sua
legitimidade ou importância que queremos colocar em causa.
Quanto a primeira premissa, não há muito
o que se dizer; talvez somente questionar se de fato os estudantes irão
utilizar esse “poder” conquistado ou se acreditarão que, elegendo alguém para
os representar, já terão cumprido seu papel de “cidadão”. Não pretendemos ser
alarmistas quanto a isso e nem prever o futuro, mas a experiência do que
comumente ocorre é o suficiente para nos deixar “duvidosos”.
Da
mesma forma, a segunda não levanta menos dúvidas que só poderão ser respondidas
no futuro. Porém, neste caso, já há indicativos maiores de que os estudantes
não irão participar da política da comunidade ouropretana. Dizemos isso com
base na (des)mobilização intensa em torno de uma possível greve por parte de
professores e servidores técnico-administrativos da Universidade, associada a
um movimento, por parte dos estudantes, de volta para casa durante a greve.
Já
que os estudantes depois de transferirem seus títulos de eleitos passam a
participar da vida política, não seria o caso dos universitários se
mobilizarem, a favor ou contra, em torno da causa da greve? Mas pelo contrário,
já transparece nos diálogos pelos corredores da UFOP e nas repúblicas que os
estudantes precisarão voltar para suas cidades. Ora, mas a idéia não
é a de que agora são cidadãos ouropretanos? Quando, senão em uma greve, é o
momento para os estudantes iniciarem sua participação política? O único momento
“político” da vida universitária são as eleições municipais?
Como
dissemos, não se pretende aqui vaticinar o insucesso do Transfira UFOP, mas uma coisa é óbvia: se, de fato, as coisas
ocorrerem como se preparam para ocorrer em torno da greve prevista para o dia
17 de maio, o movimento de transferência do título de eleitor parece tender à
semelhança com o mero clicar em “curtir”, “compartilhar” e principalmente com o
“participar”, embora um pouco mais trabalhoso.
(Ouro Preto, 7 de maio de 2012)