A
nova "esquerda" entra numa paranoia eleitoral tão grande, uma
preocupação com o poder tão grande, que é incapaz de qualquer defesa a
pessoas que são oprimidos ou sofrem injustiças de governos que não sejam
do PSDB ou alguma coisa parecida, como é o caso dos atingidos pela
copa. Veem o mundo segundo a lógica "se todo mundo falasse isso,
perderíamos a eleição" e se tornam por isso tão insensíveis ao
ideário clássico da esquerda, as minorias e os oprimidos que não são
contemplados pelos seus programas ou políticas públicas, que agem como
aqueles que eles criticam.
É possível resolver tudo de uma vez?
Não. Eles vão um dia chegar até essas pessoas a quem hoje eles não
chegam? É possível que sim. Mas fingir de cego e surdo com vistas
eleitorais é digno de reprovação sempre e não torna o país melhor.
Avanços "nunca dantes" conquistados são centenas e só a nova "esquerda"
poderia traze-los agora, fato. Mas não somente disso que se trata e
fazer política não se resume a isso.
Aí eles se perguntam: "mas,
cara, você vai votar em quem então? Nos tucanos?!". Óbvio que não. Mas,
novamente, não é somente disso que se trata. Política não é "em quem eu
você vai votar", mas o que você defende, pelo que você luta. Os partidos
gastam milhões em propaganda, ninguém precisa ser refém da eleição e
não ser livre para expressar sua opinião.
(Belo Horizonte, 27/04/2014)
Já perdi muitas anotações em gavetas. Este blog deve ser mais seguro! A academia, o trabalho argumentativo, a pesquisa bibliografica (com certeza, muito importantes), quase nos impedem de fazer filosofia, de pensar livre e interdisciplinarmente. Temas outros, por vezes mais importantes, ficam excluídos por falta de tempo, de percepção e vontade. Esses escritos são aquilo que não quis deixar perder no fundo da gaveta e da vida, mesmo sob o risco de ser bobo, como todo pensamento embrionário é.
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domingo, 27 de abril de 2014
quarta-feira, 19 de junho de 2013
Novos personagens no Game of Thrones brasileiro
Nessa última semana as
coisas têm acontecido em uma rapidez impressionante. No máximo há dois dias uma
percepção geral tomou conta de todos que estão ativos nos protestos: a falta de
orientação política e ideológica do movimento. Rapidamente surgiram muitos e
ótimos textos sobre o assunto e sobre o risco da cooptação do movimento por
bandeiras da direita e sobre a dispersão em uma profusão de ideias, que tornam impossível
qualquer reivindicação séria.
Dois dos melhores
textos são o de Miguel do Rosário e o de Natacastro (links abaixo).
Levando essa percepção dos
blogs para a ação concreta, os movimentos, pelo menos nas capitais, estão buscando
levantar reivindicações gerais e coloca-las em pauta, traçando um plano de
metas, bem como uma agenda dos protestos, uma vez que estes estão surgindo a
partir de várias direções, causando uma confusão de informações (eventos diferentes
nos mesmos horários, boatos sendo reproduzidos, mentiras, etc.).
Porém, conforme vão surgindo
as reivindicações nos papéis e as pessoas com experiência em movimento político
vão se tornando mais ativas neste processo, o grosso dos manifestantes se
ressentem.
Conforme se vai dando bois,
isto é, quando se transforma a indignação em propostas palpáveis, começam a
surgir os insatisfeitos. O que é absolutamente compreensível e plausível (sentimento
do qual partilho) e que ocorre por, pelo menos, duas coisas: primeiro, a
percepção que mesmo que tivéssemos cem ou mil pautas de reivindicações e que
estas fossem lindamente alcançadas, ainda não seria suficiente, porque, mesmo
quem não sabe do que se trata, deseja reformas estruturais, o que, em ultima
instância significa revolução, pacífica ou não.
Isso fica claro nas
páginas dos eventos dos protestos. Nunca é o suficiente: sempre falta isso ou
aquilo. E isso traz uma novidade a tudo isso que está ocorrendo: o surgimento
de novos personagens, antes desorganizados (é preciso reconhecer que ainda
desorganizados), algo espontâneo e democrático, pessoas que tem demandas
próprias que, acreditam, não estão contempladas em demandas anteriores, seja de
movimentos, seja de partidos.
E
aí, entra a segunda causa: a desconfiança pelo oportunismo dos partidos,
sindicatos e coletivos. Ora, quem faz parte de algum movimento ou fez parte,
sabe que há algo de justificado aí. Mesmo que alguém não queira reconhecer como
oportunista a si próprio ou ao grupo do qual faz parte, pode reconhecer isso em
seus inimigos políticos. Afinal, não é a toa que muitos grupos não batam muito
bem: todos se acusam de oportunismo.
Para o primeiro
problema, é preciso encontrar soluções que contemplem diversas reivindicações
por serem mudanças mais radicais e de base, da qual uso como exemplo a reforma
política, que atinge, entre outras coisas, os contratos absolutamente imorais
com empresários, inclusive do ramo do transporte pública e que encarecem a
passagem e sucateiam os serviços, desvio de verba pública, pessoas que não nos
representam em cargos importantes, etc.
Para o segundo, sindicatos,
coletivos e militantes de partidos, precisem, talvez, retroceder sob pena de
colocar o próprio movimento em risco e voltarmos a como era antes, com
movimentos pequenos e dispersos. O que talvez não seja tão grave se, de fato, não
forem oportunistas e se o movimento os representa. É injusto, porque éramos as
pessoas que desde sempre estivemos lutando? É errado e burrice? Sim, mas fazer
o quê se a politicagem afastou da política os que enfim acordaram...
Entretanto, é fato que
o movimento precisa de organização, coordenação, pessoas que entendam de
política, porque, como diz meu amigo Wernner Lucas, “política não é pra
amadores”. É preciso conhecer e combater artimanhas, conhecer números,
estatísticas e quem é quem na guerra dos tronos. E nisso, aqueles que estão na
luta há mais tempo podem atuar (para fazer jus ao título do texto: se não entendermos
o que acontece em cada canto de Westeros e quisermos nos meter em política e ter como guia simplesmente a vontade e a honra, se
somos novos no pedaço como um Ned Stark, teremos uma morte violenta). E ninguém
melhor neste caso que os sindicatos, coletivos e militantes de partidos.
Porém, isso é muito
diferente de se ter lideres! Os militantes experientes precisam realmente
reconhecer que estes novos personagens não são massa de manobra, bem como é preciso
reconhecer que, mesmo que o movimento tenha surgido de grupos específicos, ele
não mais pertence a ninguém.
Agora, as pessoas que
tem horror a partidos, a coletivos, a sindicatos, a organização e coordenação
precisam, por sua vez, reconhecer, que, quer queira, quer não, vai chegar uma
hora que algumas pessoas vão ter que serem destacadas (o que é diferente de se “destacar”,
embora a mídia vá fazer de tudo para que isso aconteça). Se alguém realmente luta
nesse movimento por mudanças, vai chegar a hora de negociar, e não se negocia
com milhares de pessoas, mas com representantes. Vão ter que aprender que é
preciso alguma unidade, porque alguém precisa centralizar tudo o que está acontecendo
e tudo o que se deseja. E vão ter que aprender que nem toda reivindicação faz
sentido e que muitas são contraditórias com outras. E aí, uma pessoa que
defende bandeiras da direita, por exemplo, vai ter que perceber que este
movimento e estes protestos não são um oba-oba-vou-parar-de-xingar-no-twitter:
as reivindicações principais são a pauta típica da esquerda a muitos anos!
Vai ter oportunista
querendo se aproveitar disso? Sim, mas estes são facilmente reconhecidos. O
pior problema é que, principalmente, vai ter gente querendo massagear o próprio
ego; militante velho querendo ser reconhecido como guru do movimento... Porém,
isso é natural. Da mesma forma tem adolescente querendo aparecer mais que
outros nas discussões dos eventos do facebook, querendo ser dono da verdade,
etc.
A única forma de se
combater isso é a vigilância coletiva. Aprender a fazer algo que devíamos ter
sempre feito com nossos representantes políticos: trata-los e faze-los entender
que não são superiores, chefes, lideres – são meros representantes.
Novamente: vai ter
gente cometendo abusos egóicos? Sim, mas isso é inevitável e, como um todo, a coerência
e a consistência do movimento vai se dar de forma dialética, pois não há outra
forma de se lidar com tudo isso.
Link para os textos acima citados (Coincidentemente,
ambos tem café no meio):
http://cafecomnata.wordpress.com/2013/06/17/ei-reaca-vaza-dessa-marcha/
(Belo Horizonte, 19 de junho de 2013)
(Belo Horizonte, 19 de junho de 2013)
segunda-feira, 11 de junho de 2012
Adolescências politicamente corretas: nossa massa de manobra!
Sou de esquerda. Grande parte dos meus
amigos e conhecidos atualmente o são. Não tive, no início de minha formação,
grande incentivo a isso. Não que meus familiares não fossem de esquerda, porém
não havia abertamente uma formação de minha consciência esquerdista. Na verdade,
havia em minha “sociedade” infanto-juvenil uma apoliticidade generalizada – e
qualquer desinteresse político está mais relacionado ao direitismo que ao
esquerdismo por seu caráter mantenedor da vida tal como ela está e de uma
aceitação a-crítica do mundo tal como ele se apresenta. Acredito que isso era
algo geral da sociedade brasileira há mais ou menos uma década atrás: algo que
se chama “alienação”.
É fato que isso é algo diferente do que
vemos hoje, pelo menos no que nos transparece na web, em seus blogs e em
suas redes sociais – o chamado politicamente correto, em suas diversas
vertentes: a “onda verde”, a sustentabilidade (palavra não prevista no
dicionário de meu word 2003), as
várias marchas pelas minorias iniciadas pelas redes, o grande compartilhamento
de informações deste teor, a reprovação massiva das grandes corporações
midiáticas, etc.
Diferentemente do que ocorria há uma
década atrás, há hoje uma grande demanda por novas estéticas (enquanto era a
rede Globo que as ditava), há uma maior aceitação da sensibilidade, há um maior
incentivo para que as pessoas expressem e tenham uma opinião a respeito de
assuntos que há 10 anos eram tidos como desinteressantes. E nisso, as
ferramentas da web e as novas
tecnologias tem um papel fundamental, por propiciar lugar para quem queira se
expressar e um espaço de réplica da sociedade ao que é dito (e ao que não é
dito) pelos médias “oficiais”.
Me parece apressado demais associar esse
fenômeno de adesão ao ideário de esquerda à chegada de um partido de esquerda
ao poder, uma vez que para isso seria necessária toda uma transformação da
grade curricular das escolas brasileiras e uma substituição gradual dos
professores atuais por aqueles que passariam à “pregar” idéias da esquerda. Não
me parece o caso. Além do que, seria necessário que coincidissem o número de
eleitores que votam nos partidos da esquerda com aqueles que compartilham
informações ditas “de esquerda”.
Pelo contrário (e essa é uma mera
opinião, talvez arraigada com um alarmismo e um conseqüente exagero de minha
parte), me parece haver uma adesão a
priori da juventude (a chamada “Geração Y”) ao ideário de esquerda. Me
parece que há um tipo de irracionalismo na base da adesão a essa vertente
ideológica específica, uma espécie de desejo de fazer parte de algo
emocionalmente atrativo; algo que se relaciona com o que a psicóloga
norte-americana Turkle define como um “sentimento de querer ter um sentimento
para partilhar”. Vê-se isso na aceitação a-crítica de tudo que se coloca
aparentemente a favor do que é de esquerda e a rejeição apressada do que se
parece de direita – mesmo que não o seja. É isso que está na base da “ditadura
do politicamente correto”, da qual tanto se fala hoje em dia.
Ora, poderíamos dizer que isso é algo bom
que ocorre em nossa sociedade, uma vez que pela primeira vez na história o
ideário de esquerda é “situação”, enquanto que há poucas décadas quem era de
esquerda era considerado um mau cidadão – que é, notadamente, o que se pensa de
quem se diz “de direita”. De fato, pessoalmente, preferiria uma ditadura de
esquerda a uma ditadura de direita – se “esquerda” e “ditadura” não fossem, a
meu ver, coisas que não se coadunam.
Stuart Mill – filósofo utilitarista
britânico, de esquerda (o primeiro filósofo a defender, por exemplo, o direito
das mulheres) e radical defensor da liberdade – apresenta dois argumentos na
defesa da liberdade de opinião (liberdade esta que significa a não existência
de pressão social por sobre a formação de individualidades), que são
resumidamente os seguintes: a sociedade só tem a ganhar com o conflito aberto
de idéias e que, porque os seres humanos erram diversas vezes, a ditadura da
maioria corre sérios riscos de incorrer em um erro generalizado – pelo
contrário, no debate aberto de opiniões é preciso pensar criticamente para
defender o que se acredita e isso diminui as chances de erro.
Afora a possibilidade de nós de esquerda
estarmos enganados sobre nossas crenças, a adesão a-crítica das massas ao
ideário esquerdista pode ser nociva de outra forma: se pessoas aderem à
esquerda com base em algum tipo de reflexão, eles são capazes de defender seus
ideais racionalmente. Saberão distinguir o que é algo que realmente importante,
daquilo que é irrelevante. Não haveria uma aceitação ou compartilhamento de
crenças (e links da web não deixam de serem crenças
massivamente difundidas) na base do “todo mundo está partilhando”. Vê-se que
hoje grande parte das pessoas que partilham links,
caso surja uma discussão, é incapaz de dizer algo importante na defesa daquilo.
Isto é, o que é que impede que daqui a uns anos partilhem material oposto
pensando ser “de esquerda”? Penso que a própria ditadura do politicamente
correto já tem o efeito oposto ao que uma pessoa verdadeiramente de esquerda
deseja, se pense no forte apelo publicitário que atingem as propagandas que são
proibidas por serem “politicamente incorretas” – fato já utilizado
maliciosamente pelos publicitários. E se daqui a alguns anos uma ditadura de
esquerda de fato for possível, tais pessoas não serão as primeiras a aplaudir
de pé? Se agora nos parece bom que centenas de pessoas compartilhem um vídeo ou
o link de um blog, no qual se divulga coisas que acredito serem importantes,
mesmo que o façam a-criticamente, não poderão ser estas mesmas pessoas que irão
nos excomungar socialmente caso daqui uns anos nós não coadunemos com a “vida
tal como ela está” e com “o mundo tal como ele se apresenta”? Não fariam conosco
como faz a rede Globo quando cria seus astros e depois os derruba
hipocritamente?
O compartilhamento em massa de
informações pela web não pode se dar
sem a formação crítica dos indivíduos que participam disso, caso contrário eles
serão mera massa de manobra – o que não é, em nenhum caso, um ganho para a
sociedade se pensarmos como Mill. E isso não pode ser diferente do caso de
intervenções urbanas, performances e
obras de arte engajadas, bem como das
diversas formas de manifestação política: não podemos nos dar ao luxo de
vaidosamente ambicionarmos aplausos e adesão à nossa causa em troca da
manipulação dos indivíduos por meio meramente das emoções.
(Ouro Preto, 11 de junho de 2012)
segunda-feira, 28 de maio de 2012
Conservadorismo e elitismo em relação à performance
Ridicularizar a dúvida de
quem pergunta é, em qualquer área, não só uma arrogância, como algo que pode
descambar para um elitismo, quando isso se torna barreira para o acesso ao
conhecimento sobre o que se dúvida – o objeto da pergunta. É também uma atitude
de conservadorismo, comparável àqueles românticos que, contra o racionalismo
revolucionário francês, queriam manter o irracionalismo da tradição místico-religiosa.
É uma atitude comparável às antigas seitas e ao que faziam os “sábios” videntes
da Grécia antiga: nada mais, nada menos do que impedir o acesso ao que se quer
saber aos não-iniciados – atitude contra a qual se voltaram primeiramente os
guerreiros gregos e em seguida os filósofos, e que é contrária ao principio de
isonomia que está na base da democracia e da racionalidade. Querer restringir o
uso da razão em relação a qualquer coisa terá sempre como conseqüência uma má
herança destas atitudes elitistas e conservadoras.
Quando alguém não entende, não conhece, o mais comum é ou
perguntar; quando a pessoa se cala, isto pode ser sintoma de uma timidez ou
medo de parecer menos inteligente que os demais “sabidos”. Pelo menos
“perguntar” foi o que todas as professoras nos ensinaram.
Mais recentemente há uma crescente onda de desprezo pelo
ato de perguntar: duvidar é “querer saber” (o que não vejo problemas), ou
melhor, “querer dominar” (e aqui entendo a crítica). Obter uma resposta,
pensam, significa se satisfazer, sentir um gozo por dominar o objeto de
conhecimento e poder utilizá-lo, obter uma definição que “fecha” a
possibilidade de novas definições e percepções por sobre o objeto, etc.
Ora, se isso tudo é verdade, eu não veria problemas em
sentir um prazer por conhecer um objeto (dominar); acho até mesmo natural ao
ser humano, uma vez que esse conhecimento foi possibilidade de sobrevivência da
humanidade por sobre a Terra – como pensam os sociólogos Theodor Adorno e Max
Horkheimer. E acredito que todo animal (classe da qual os humanos fazem parte)
gostam naturalmente de sobreviver...
Agora, se querer saber significa “querer dominar”, no
sentido de obter uma definição imutável e que leva a pessoa a acreditar que
sabe tudo sobre o objeto, então há um problema, já que quase sempre (ou sempre)
as definições dos seres humanos sobre as coisas estão equivocadas e precisam
ser revistas e porque nunca a fruição de um objeto pode se esgotar tão
facilmente.
Mas não parece
que seja verdade que seja assim. Uma pessoa que tem uma definição como resposta
a uma questão do tipo “o que é...?” não fica satisfeita e pensa saber tudo
sobre aquilo. Há, por outro lado, uma caricatura de que as coisas ocorram
assim, inspirada talvez por uma visão de que em uma sociedade como a atual, na
qual “a ciência ocupou o lugar que outrora foi da religião”, as pessoas se
satisfaçam com definições objetivas e “reducionistas” sobre as coisas. Bem, é
preciso demonstrar que as pessoas realmente ajam assim de forma tão estúpida
(algumas dezenas de exemplos me convenceriam); sabemos que, pelo menos os
cientistas não o fazem: se tomarmos o exemplo mais costumeiro, a “água”, vemos
que os cientistas não pararam suas pesquisas quando descobriram que a água é
H2O, pelo contrário, prosseguem buscando mais informações, com vistas até mesmo
de solucionar questões como reproduzir a água.
Na verdade não
acredito que haja definições suficientes para os objetos, ou seja, que um
objeto possa ser definido em todo o seu grau de potência. E isso não é nenhum
problema para o conhecimento ou para a possibilidade de nos comunicarmos.
Wittgenstein em suas Investigações Filosóficas diz algo que deveria parecer óbvio que
é o fato de que não precisamos de definições para saber o que significa uma
palavra. As pessoas geralmente não têm definições claras das palavras que
utilizam e isso não impede seu uso e a comunicação: para o filósofo, o
significado de uma palavra se dá no uso. Eu por exemplo não sei definir “amor”,
mas sei o que a palavra significa. E melhor ainda, sei utilizá-la de forma
eficaz! Sei distinguir “amor” de ciúme, de carinho, raiva, etc. E isso não me
leva a pensar que sei tudo sobre o amor. É possível até que se um dia eu
chegasse a pensar que sei tudo sobre o amor, eu estivesse enganado; é possível
que o amor se modifique ao longo do tempo e ao longo dos séculos, que seja,
pois, um conceito “aberto”, não passível de ser definido.
Assim, se
alguém me perguntasse o que é o “amor”, eu não saberia dar uma definição, mas poderia
tentar esboçar uma possibilidade de acesso para essa pessoa a partir de
características vagas. Como é possível que essa pessoa me entenda eu não sei, e
isso é motivo para muita controvérsia entre filósofos da linguagem. Mas o que
quero chamar atenção aqui é a possibilidade de darmos explicações sem esgotar o
objeto em uma definição “fechada”.
Da mesma forma
que não haja problemas para o conhecimento aqui, também não deveria haver o
temor de que a dúvida, o desejo de explicações, descambe para um reducionismo.
Porém, é o que ocorre muitas vezes, nas mais diversas áreas, mas muito
comumente nas artes, especialmente em relação às chamadas artes contemporâneas,
como por exemplo, a performance.
Talvez mesmo
porque haja um afastamento da arte contemporânea da sociedade (seja ele
justificado ou não – não cabe discutir aqui), há uma grande demanda de
explicações a seu respeito, inversamente proporcional à falta delas. Pelo que
dizem normalmente aqueles que são interrogados parece mesmo haver o temor acima
citado, que leva muitas vezes ao desprezo pela pergunta, figurado em uma tergiversação
em relação ao problema da suposta necessidade das definições demandada pela
sociedade cientificista.
Que esse temor
possa ser justificado por uma idéia distorcida de que a sociedade foi realmente
tão infantilizada pelo cientificismo (exceto, claro, tais pessoas), é
amplamente compreensível, porém, tal atitude apenas ratifica a situação atual
de afastamento das artes em relação às grandes massas, culminando não só na
repulsa pelo que há de mais avançado na arte contemporânea, mas no que é pior,
na sua esterilidade: naquela costumeira frase “ah, isso deve ser arte”, que no
fundo significa “isso não é pra mim”. E assim, coisas como a perfomance se tornam algo para os
“eleitos”, que co-participam em seu desconhecimento de uma definição rígida,
mas aos quais foi dada alguma porta de entrada, talvez porque, como “eleitos”,
não se temia que esperassem por uma definição “científica” de performance e lhes foram descritos
traços fundamentais a seu respeito, como por exemplo, o de que não pode ser
definida em um conceito fechado – o que não deixa de ser uma explicação
racional, mesmo que porventura mal feita.
E assim, podemos perguntar, por que é que algumas pessoas
podem receber alguma explicação enquanto outras não? Não querendo cair em um
erro comum às pessoas que realizam críticas, que é atacar supostas más
intenções subjetivas, em primeiro lugar, pois, não tenho acesso a elas e em
segundo porque não acredito que sejam ruins neste caso, suponho ser plausível
apontar que, de qualquer forma, fatos assim servem com sucesso ao
conservadorismo da sociedade dividida tradicionalmente entre as elites
culturais e as massas, embora a própria performance
art, como muito do que se faz hoje em arte contemporânea tenha surgido na
contramão disso tudo: mas é muito mais comum do que se imagina que o
conservadorismo e atitudes elitistas estejam amplamente intrincadas nas que se
pretendem revolucionárias.
(Ouro Preto, 24 de maio de
2012)
domingo, 20 de maio de 2012
Crimes de greve?
Terá alguém o direito de obrigar outra
pessoa a fazer algo que acredita ser justo?
Se
respondermos “não”, estaremos dizendo que nem Hitler, a Santa Inquisição, os
colonizadores espanhóis e portugueses, nem Che Guevara, Antônio Conselheiro e a
Revolução Francesa estavam justificados. Se, por outro lado, dissermos que
“sim”, estamos aceitando que qualquer pessoa tem o direito de fazer o que
quiser, desde que acredite que aquilo é justo – e isso não significa que a
coisa seja de fato “justa”. Em comum entre todas essas pessoas e movimentos, é
o fato de haverem um conjunto de crenças que acreditavam serem justas e que os
impulsionava a fazer algo para torná-las realidade. Tanto Hitler quanto os
românticos franceses acreditavam que seus ideais eram importantes e justos o
suficiente para, por meio de armas, serem colocados na sociedade, mesmo que
para isso precisassem massacrar quem fosse contrário.
Se
algumas pessoas têm forte tendência a aceitar que os revolucionários cubanos
tinham o direito de fazerem o que fizeram, é porque pensam que esses lutavam
por coisas justas, pois esses estavam se insurgindo contra um regime
autoritário e injusto, enquanto que terão tendência a pensar, por exemplo, que
os colonizadores da América não tinham o direito de impor aos índios seu modo
de vida, por isso se tratar de uma injustiça. Mas, e se retrocedêssemos no
tempo e começássemos a pensar como pensavam as pessoas daquela época,
acreditando ser justo a “humanização” dos índios, por diversos e loucos motivos?
E se fossemos alemães na época do surgimento do nazismo, não pensaríamos ser
justo o que fazia Hitler e sua corja de assassinos? Estaríamos, pois, justificados
a assassinar judeus e índios, coisas que hoje a maioria das pessoas pensa ser
errado? É claro que não e é por isso que ninguém está justificado a fazer
qualquer coisa somente porque pensa que essa coisa é justa. Há limites para a
liberdade.
Hoje,
é muito comum pensarmos que estamos justificados a nos levantar contra quem é avesso
ao ideário de esquerda. Trazendo para os acontecimentos desta semana – a greve
dos professores da Universidade Federal de Ouro Preto –, pensamos estar
justificados a interromper a aula de qualquer professor que esteja “furando” a
greve, pois esta é justa, mesmo que assim firamos sua autonomia e sua crença de
que o “justo” é que ele continue com suas aulas.
Ora,
de fato, um “fura-greve” parece causar alguns danos ao movimento que
acreditamos ser justo.
Em
primeiro lugar, nos parece justo lutar contra o afastamento da academia da
“tarefa da reflexão e da produção de conhecimento que beneficiem a sociedade
como um todo. Temos uma universidade debilitada, avaliada não mais em razão de
sua função social e cultural de caráter universal, mas centrada na
particularidade das demandas do mercado, na pedagogia dos resultados e
produtivismo” (retirado do Boletim do
Comando Local de Greve, de 16 de maio de 2012). Há uma série de pesquisas
que se dedicam a demonstrar que o Ensino, reduzido ao seu valor instrumental, acaba
por formar pessimamente seus alunos, entre os quais indico o texto do professor
do departamento de filosofia da Universidade Federal de Ouro Preto, Desidério
Murcho, “Pra que serve o ensino?” (disponível em: http://criticanarede.com/ens_valor.html).
Um dos objetivos principais da greve é
forçar uma discussão com o governo a respeito da má qualidade de ensino e
produção de pesquisa e conhecimento praticada hoje nas universidades públicas
brasileiras, uma vez que não há no nosso país o debate público de idéias, sobre
bases racionais, senão quando há uma pressão da opinião pública ou alguma
interrupção de serviços.
Nesse
sentido, a proibição de qualquer atividade de ensino durante a greve – decidida
sob deliberação democrática dentro da Associação dos Docentes (ADUFOP), isto é,
mediante uma votação em que a maioria ganha –, atende ao seguinte pensamento: a
ininterrupção das atividades de ensino por parte de algum professor ou de um
grupo de professores pode enfraquecer o movimento, tanto perante a opinião
pública e a imprensa, como causar insegurança. De fato, o movimento grevista
tem mais força de negociação e discussão com o governo caso seja coeso.
Talvez possamos questionar se a decisão
de um ou outro professor de não
aderir à greve, pode realmente causar dano tão grande ao movimento:
aparentemente não, desde que não se torne uma prática largamente realizada. E
assim, analisando o peso dos danos individuais, parece que o dano à liberdade
do professor é maior do que o infligido ao movimento de greve. Podemos sim,
acreditar que tal professor age erroneamente, pois não aceita a autoridade do
que foi decidido democraticamente, e assim, transgride a “lei”. É assim que as
coisas funcionam em uma democracia e tal professor deve respeito ao que foi
decidido em assembléia, tenha ele participado dela ou não. Mas por outro lado,
ao longo da história, consideramos como “heróis” indivíduos que se levantaram
contra decisões da maioria, por considerá-las injustas – não me parece o caso,
mas a humanidade sempre se enganou a respeito de coisas parecidas.
Porém,
um professor que decide dar aulas durante o período acadêmico, à revelia da
suspensão do calendário acadêmico, acaba por prejudicar aos alunos, uma vez que
este terá ainda outras disciplinas para terminar quando do fim da greve. Sem
contar que o aluno deverá aceitar essa decisão do professor por sua figura de
autoridade e por temor de ser “marcado”. E aqui há um dano sério à liberdade do
aluno.
Assim,
nos parece totalmente justo e justificado proibir o “fura-greve” de exercer
atividades de ensino (lembrando que atividades de pesquisa, orientações e
algumas aulas são permitidas, mediante informa à ADUFOP) – e isso eu digo
àqueles que como eu apóiam a greve e se sentem ofendidos com os “fura-greve”.
Ora,
mas se estamos justificados a fazer isso, estariam outros grupos que se
organizassem democraticamente também justificados a, por exemplo, obrigar os
professores a retornarem às aulas, pois isto lhes parece justo? Se os discentes
houvessem, ao invés de apoiado a greve, ido contra ela por pensar que ela fere
seus direitos, poderíamos retirar os professores de seus lares e sob gritos
levá-los até dentro da sala de aula?
É
obvio que não pela lei, já que há o direito à greve por parte dos professores,
enquanto não se pode forçar seu fim senão por alguma decisão judicial. Mas
enquanto falamos de liberdade e justiça em um sentido mais profundo que nem
sempre coaduna com o que está expresso na constituição – várias vezes
considerada injusta e por isso mutável –, podemos perguntar por um direito mais
amplo de qualquer pessoa fazer aquilo que bem entenda, desde que isso não cause
danos a outrem, o que parece totalmente defensável.
E
aqui há uma grande dificuldade de avaliarmos quem tem mais direito, uma vez que
a prática generalizada de “furar” a greve pode causar grandes danos ao
movimento e aos alunos, como também a imposição da greve por sobre os
“fura-greve” causa também um dano à sua liberdade pessoal.
A
única saída que consigo pensar para isso é o diálogo com os fura-greve, de
forma a tentar convencê-los – que na realidade é a diretriz que o Comitê de
Greve se propôs a seguir. Porém, caso contrário, precisaríamos esquecer os
problemas filosóficos, aceitar que podemos errar, e aceitar a injustiça que é
imanente à democracia majoritária: talvez nunca ao longo de sua história tenha
havido consenso a respeito de nenhuma de suas decisões e isto significa, em
ultima instância, que sempre houve quem tivesse sua liberdade diminuída em
relação a algum assunto. Porém, não conheço outra forma de se modificar as
coisas.
Neste caso, que vença a democracia... E
neste momento, ser democrático é respeitar o que foi e for decidido nas Assembléias
de Greve.
(Agradeço aos grandes amigos Aluízio Couto e Sagid
Salles pelos questionamentos – na verdade grande parte dos que estão acima –
que deram fruto a esse texto, com o qual eles provavelmente não concordarão. E
assim discordaremos mais uma vez, e mais uma vez discutiremos. Mas é assim
mesmo que se faz filosofia seriamente: talvez a maior demonstração de respeito
à Liberdade e à Tolerância que já tenha existido!)
(Ouro Preto, 20 de maio de 2012)
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