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domingo, 27 de abril de 2014

A nova esquerda e a paranoia eleitoral

A nova "esquerda" entra numa paranoia eleitoral tão grande, uma preocupação com o poder tão grande, que é incapaz de qualquer defesa a pessoas que são oprimidos ou sofrem injustiças de governos que não sejam do PSDB ou alguma coisa parecida, como é o caso dos atingidos pela copa. Veem o mundo segundo a lógica "se todo mundo falasse isso, perderíamos a eleição" e se tornam por isso tão insensíveis ao ideário clássico da esquerda, as minorias e os oprimidos que não são contemplados pelos seus programas ou políticas públicas, que agem como aqueles que eles criticam.
É possível resolver tudo de uma vez? Não. Eles vão um dia chegar até essas pessoas a quem hoje eles não chegam? É possível que sim. Mas fingir de cego e surdo com vistas eleitorais é digno de reprovação sempre e não torna o país melhor.
Avanços "nunca dantes" conquistados são centenas e só a nova "esquerda" poderia traze-los agora, fato. Mas não somente disso que se trata e fazer política não se resume a isso.
Aí eles se perguntam: "mas, cara, você vai votar em quem então? Nos tucanos?!". Óbvio que não. Mas, novamente, não é somente disso que se trata. Política não é "em quem eu você vai votar", mas o que você defende, pelo que você luta. Os partidos gastam milhões em propaganda, ninguém precisa ser refém da eleição e não ser livre para expressar sua opinião.


(Belo Horizonte, 27/04/2014)

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Novos personagens no Game of Thrones brasileiro

Nessa última semana as coisas têm acontecido em uma rapidez impressionante. No máximo há dois dias uma percepção geral tomou conta de todos que estão ativos nos protestos: a falta de orientação política e ideológica do movimento. Rapidamente surgiram muitos e ótimos textos sobre o assunto e sobre o risco da cooptação do movimento por bandeiras da direita e sobre a dispersão em uma profusão de ideias, que tornam impossível qualquer reivindicação séria.
Dois dos melhores textos são o de Miguel do Rosário e o de Natacastro (links abaixo).
Levando essa percepção dos blogs para a ação concreta, os movimentos, pelo menos nas capitais, estão buscando levantar reivindicações gerais e coloca-las em pauta, traçando um plano de metas, bem como uma agenda dos protestos, uma vez que estes estão surgindo a partir de várias direções, causando uma confusão de informações (eventos diferentes nos mesmos horários, boatos sendo reproduzidos, mentiras, etc.).
Porém, conforme vão surgindo as reivindicações nos papéis e as pessoas com experiência em movimento político vão se tornando mais ativas neste processo, o grosso dos manifestantes se ressentem.
Conforme se vai dando bois, isto é, quando se transforma a indignação em propostas palpáveis, começam a surgir os insatisfeitos. O que é absolutamente compreensível e plausível (sentimento do qual partilho) e que ocorre por, pelo menos, duas coisas: primeiro, a percepção que mesmo que tivéssemos cem ou mil pautas de reivindicações e que estas fossem lindamente alcançadas, ainda não seria suficiente, porque, mesmo quem não sabe do que se trata, deseja reformas estruturais, o que, em ultima instância significa revolução, pacífica ou não.
Isso fica claro nas páginas dos eventos dos protestos. Nunca é o suficiente: sempre falta isso ou aquilo. E isso traz uma novidade a tudo isso que está ocorrendo: o surgimento de novos personagens, antes desorganizados (é preciso reconhecer que ainda desorganizados), algo espontâneo e democrático, pessoas que tem demandas próprias que, acreditam, não estão contempladas em demandas anteriores, seja de movimentos, seja de partidos.
            E aí, entra a segunda causa: a desconfiança pelo oportunismo dos partidos, sindicatos e coletivos. Ora, quem faz parte de algum movimento ou fez parte, sabe que há algo de justificado aí. Mesmo que alguém não queira reconhecer como oportunista a si próprio ou ao grupo do qual faz parte, pode reconhecer isso em seus inimigos políticos. Afinal, não é a toa que muitos grupos não batam muito bem: todos se acusam de oportunismo.

Para o primeiro problema, é preciso encontrar soluções que contemplem diversas reivindicações por serem mudanças mais radicais e de base, da qual uso como exemplo a reforma política, que atinge, entre outras coisas, os contratos absolutamente imorais com empresários, inclusive do ramo do transporte pública e que encarecem a passagem e sucateiam os serviços, desvio de verba pública, pessoas que não nos representam em cargos importantes, etc.
Para o segundo, sindicatos, coletivos e militantes de partidos, precisem, talvez, retroceder sob pena de colocar o próprio movimento em risco e voltarmos a como era antes, com movimentos pequenos e dispersos. O que talvez não seja tão grave se, de fato, não forem oportunistas e se o movimento os representa. É injusto, porque éramos as pessoas que desde sempre estivemos lutando? É errado e burrice? Sim, mas fazer o quê se a politicagem afastou da política os que enfim acordaram...
Entretanto, é fato que o movimento precisa de organização, coordenação, pessoas que entendam de política, porque, como diz meu amigo Wernner Lucas, “política não é pra amadores”. É preciso conhecer e combater artimanhas, conhecer números, estatísticas e quem é quem na guerra dos tronos. E nisso, aqueles que estão na luta há mais tempo podem atuar (para fazer jus ao título do texto: se não entendermos o que acontece em cada canto de Westeros e quisermos nos meter em política e ter como guia simplesmente a vontade e a honra, se somos novos no pedaço como um Ned Stark, teremos uma morte violenta). E ninguém melhor neste caso que os sindicatos, coletivos e militantes de partidos.  
Porém, isso é muito diferente de se ter lideres! Os militantes experientes precisam realmente reconhecer que estes novos personagens não são massa de manobra, bem como é preciso reconhecer que, mesmo que o movimento tenha surgido de grupos específicos, ele não mais pertence a ninguém.
Agora, as pessoas que tem horror a partidos, a coletivos, a sindicatos, a organização e coordenação precisam, por sua vez, reconhecer, que, quer queira, quer não, vai chegar uma hora que algumas pessoas vão ter que serem destacadas (o que é diferente de se “destacar”, embora a mídia vá fazer de tudo para que isso aconteça). Se alguém realmente luta nesse movimento por mudanças, vai chegar a hora de negociar, e não se negocia com milhares de pessoas, mas com representantes. Vão ter que aprender que é preciso alguma unidade, porque alguém precisa centralizar tudo o que está acontecendo e tudo o que se deseja. E vão ter que aprender que nem toda reivindicação faz sentido e que muitas são contraditórias com outras. E aí, uma pessoa que defende bandeiras da direita, por exemplo, vai ter que perceber que este movimento e estes protestos não são um oba-oba-vou-parar-de-xingar-no-twitter: as reivindicações principais são a pauta típica da esquerda a muitos anos!

Vai ter oportunista querendo se aproveitar disso? Sim, mas estes são facilmente reconhecidos. O pior problema é que, principalmente, vai ter gente querendo massagear o próprio ego; militante velho querendo ser reconhecido como guru do movimento... Porém, isso é natural. Da mesma forma tem adolescente querendo aparecer mais que outros nas discussões dos eventos do facebook, querendo ser dono da verdade, etc.
A única forma de se combater isso é a vigilância coletiva. Aprender a fazer algo que devíamos ter sempre feito com nossos representantes políticos: trata-los e faze-los entender que não são superiores, chefes, lideres – são meros representantes.
Novamente: vai ter gente cometendo abusos egóicos? Sim, mas isso é inevitável e, como um todo, a coerência e a consistência do movimento vai se dar de forma dialética, pois não há outra forma de se lidar com tudo isso.  


Link para os textos acima citados (Coincidentemente, ambos tem café no meio):



segunda-feira, 11 de junho de 2012

Adolescências politicamente corretas: nossa massa de manobra!


Sou de esquerda. Grande parte dos meus amigos e conhecidos atualmente o são. Não tive, no início de minha formação, grande incentivo a isso. Não que meus familiares não fossem de esquerda, porém não havia abertamente uma formação de minha consciência esquerdista. Na verdade, havia em minha “sociedade” infanto-juvenil uma apoliticidade generalizada – e qualquer desinteresse político está mais relacionado ao direitismo que ao esquerdismo por seu caráter mantenedor da vida tal como ela está e de uma aceitação a-crítica do mundo tal como ele se apresenta. Acredito que isso era algo geral da sociedade brasileira há mais ou menos uma década atrás: algo que se chama “alienação”.
É fato que isso é algo diferente do que vemos hoje, pelo menos no que nos transparece na web, em seus blogs e em suas redes sociais – o chamado politicamente correto, em suas diversas vertentes: a “onda verde”, a sustentabilidade (palavra não prevista no dicionário de meu word 2003), as várias marchas pelas minorias iniciadas pelas redes, o grande compartilhamento de informações deste teor, a reprovação massiva das grandes corporações midiáticas, etc.
Diferentemente do que ocorria há uma década atrás, há hoje uma grande demanda por novas estéticas (enquanto era a rede Globo que as ditava), há uma maior aceitação da sensibilidade, há um maior incentivo para que as pessoas expressem e tenham uma opinião a respeito de assuntos que há 10 anos eram tidos como desinteressantes. E nisso, as ferramentas da web e as novas tecnologias tem um papel fundamental, por propiciar lugar para quem queira se expressar e um espaço de réplica da sociedade ao que é dito (e ao que não é dito) pelos médias “oficiais”.
Me parece apressado demais associar esse fenômeno de adesão ao ideário de esquerda à chegada de um partido de esquerda ao poder, uma vez que para isso seria necessária toda uma transformação da grade curricular das escolas brasileiras e uma substituição gradual dos professores atuais por aqueles que passariam à “pregar” idéias da esquerda. Não me parece o caso. Além do que, seria necessário que coincidissem o número de eleitores que votam nos partidos da esquerda com aqueles que compartilham informações ditas “de esquerda”.
Pelo contrário (e essa é uma mera opinião, talvez arraigada com um alarmismo e um conseqüente exagero de minha parte), me parece haver uma adesão a priori da juventude (a chamada “Geração Y”) ao ideário de esquerda. Me parece que há um tipo de irracionalismo na base da adesão a essa vertente ideológica específica, uma espécie de desejo de fazer parte de algo emocionalmente atrativo; algo que se relaciona com o que a psicóloga norte-americana Turkle define como um “sentimento de querer ter um sentimento para partilhar”. Vê-se isso na aceitação a-crítica de tudo que se coloca aparentemente a favor do que é de esquerda e a rejeição apressada do que se parece de direita – mesmo que não o seja. É isso que está na base da “ditadura do politicamente correto”, da qual tanto se fala hoje em dia.
Ora, poderíamos dizer que isso é algo bom que ocorre em nossa sociedade, uma vez que pela primeira vez na história o ideário de esquerda é “situação”, enquanto que há poucas décadas quem era de esquerda era considerado um mau cidadão – que é, notadamente, o que se pensa de quem se diz “de direita”. De fato, pessoalmente, preferiria uma ditadura de esquerda a uma ditadura de direita – se “esquerda” e “ditadura” não fossem, a meu ver, coisas que não se coadunam. 
Stuart Mill – filósofo utilitarista britânico, de esquerda (o primeiro filósofo a defender, por exemplo, o direito das mulheres) e radical defensor da liberdade – apresenta dois argumentos na defesa da liberdade de opinião (liberdade esta que significa a não existência de pressão social por sobre a formação de individualidades), que são resumidamente os seguintes: a sociedade só tem a ganhar com o conflito aberto de idéias e que, porque os seres humanos erram diversas vezes, a ditadura da maioria corre sérios riscos de incorrer em um erro generalizado – pelo contrário, no debate aberto de opiniões é preciso pensar criticamente para defender o que se acredita e isso diminui as chances de erro.
Afora a possibilidade de nós de esquerda estarmos enganados sobre nossas crenças, a adesão a-crítica das massas ao ideário esquerdista pode ser nociva de outra forma: se pessoas aderem à esquerda com base em algum tipo de reflexão, eles são capazes de defender seus ideais racionalmente. Saberão distinguir o que é algo que realmente importante, daquilo que é irrelevante. Não haveria uma aceitação ou compartilhamento de crenças (e links da web não deixam de serem crenças massivamente difundidas) na base do “todo mundo está partilhando”. Vê-se que hoje grande parte das pessoas que partilham links, caso surja uma discussão, é incapaz de dizer algo importante na defesa daquilo. Isto é, o que é que impede que daqui a uns anos partilhem material oposto pensando ser “de esquerda”? Penso que a própria ditadura do politicamente correto já tem o efeito oposto ao que uma pessoa verdadeiramente de esquerda deseja, se pense no forte apelo publicitário que atingem as propagandas que são proibidas por serem “politicamente incorretas” – fato já utilizado maliciosamente pelos publicitários. E se daqui a alguns anos uma ditadura de esquerda de fato for possível, tais pessoas não serão as primeiras a aplaudir de pé? Se agora nos parece bom que centenas de pessoas compartilhem um vídeo ou o link de um blog, no qual se divulga coisas que acredito serem importantes, mesmo que o façam a-criticamente, não poderão ser estas mesmas pessoas que irão nos excomungar socialmente caso daqui uns anos nós não coadunemos com a “vida tal como ela está” e com “o mundo tal como ele se apresenta”? Não fariam conosco como faz a rede Globo quando cria seus astros e depois os derruba hipocritamente?
O compartilhamento em massa de informações pela web não pode se dar sem a formação crítica dos indivíduos que participam disso, caso contrário eles serão mera massa de manobra – o que não é, em nenhum caso, um ganho para a sociedade se pensarmos como Mill. E isso não pode ser diferente do caso de intervenções urbanas, performances e obras de arte engajadas, bem como das diversas formas de manifestação política: não podemos nos dar ao luxo de vaidosamente ambicionarmos aplausos e adesão à nossa causa em troca da manipulação dos indivíduos por meio meramente das emoções.

(Ouro Preto, 11 de junho de 2012)    

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Conservadorismo e elitismo em relação à performance


         Ridicularizar a dúvida de quem pergunta é, em qualquer área, não só uma arrogância, como algo que pode descambar para um elitismo, quando isso se torna barreira para o acesso ao conhecimento sobre o que se dúvida – o objeto da pergunta. É também uma atitude de conservadorismo, comparável àqueles românticos que, contra o racionalismo revolucionário francês, queriam manter o irracionalismo da tradição místico-religiosa. É uma atitude comparável às antigas seitas e ao que faziam os “sábios” videntes da Grécia antiga: nada mais, nada menos do que impedir o acesso ao que se quer saber aos não-iniciados – atitude contra a qual se voltaram primeiramente os guerreiros gregos e em seguida os filósofos, e que é contrária ao principio de isonomia que está na base da democracia e da racionalidade. Querer restringir o uso da razão em relação a qualquer coisa terá sempre como conseqüência uma má herança destas atitudes elitistas e conservadoras.
            Quando alguém não entende, não conhece, o mais comum é ou perguntar; quando a pessoa se cala, isto pode ser sintoma de uma timidez ou medo de parecer menos inteligente que os demais “sabidos”. Pelo menos “perguntar” foi o que todas as professoras nos ensinaram.
            Mais recentemente há uma crescente onda de desprezo pelo ato de perguntar: duvidar é “querer saber” (o que não vejo problemas), ou melhor, “querer dominar” (e aqui entendo a crítica). Obter uma resposta, pensam, significa se satisfazer, sentir um gozo por dominar o objeto de conhecimento e poder utilizá-lo, obter uma definição que “fecha” a possibilidade de novas definições e percepções por sobre o objeto, etc.
            Ora, se isso tudo é verdade, eu não veria problemas em sentir um prazer por conhecer um objeto (dominar); acho até mesmo natural ao ser humano, uma vez que esse conhecimento foi possibilidade de sobrevivência da humanidade por sobre a Terra – como pensam os sociólogos Theodor Adorno e Max Horkheimer. E acredito que todo animal (classe da qual os humanos fazem parte) gostam naturalmente de sobreviver...
            Agora, se querer saber significa “querer dominar”, no sentido de obter uma definição imutável e que leva a pessoa a acreditar que sabe tudo sobre o objeto, então há um problema, já que quase sempre (ou sempre) as definições dos seres humanos sobre as coisas estão equivocadas e precisam ser revistas e porque nunca a fruição de um objeto pode se esgotar tão facilmente.
Mas não parece que seja verdade que seja assim. Uma pessoa que tem uma definição como resposta a uma questão do tipo “o que é...?” não fica satisfeita e pensa saber tudo sobre aquilo. Há, por outro lado, uma caricatura de que as coisas ocorram assim, inspirada talvez por uma visão de que em uma sociedade como a atual, na qual “a ciência ocupou o lugar que outrora foi da religião”, as pessoas se satisfaçam com definições objetivas e “reducionistas” sobre as coisas. Bem, é preciso demonstrar que as pessoas realmente ajam assim de forma tão estúpida (algumas dezenas de exemplos me convenceriam); sabemos que, pelo menos os cientistas não o fazem: se tomarmos o exemplo mais costumeiro, a “água”, vemos que os cientistas não pararam suas pesquisas quando descobriram que a água é H2O, pelo contrário, prosseguem buscando mais informações, com vistas até mesmo de solucionar questões como reproduzir a água.
Na verdade não acredito que haja definições suficientes para os objetos, ou seja, que um objeto possa ser definido em todo o seu grau de potência. E isso não é nenhum problema para o conhecimento ou para a possibilidade de nos comunicarmos. Wittgenstein em suas Investigações Filosóficas diz algo que deveria parecer óbvio que é o fato de que não precisamos de definições para saber o que significa uma palavra. As pessoas geralmente não têm definições claras das palavras que utilizam e isso não impede seu uso e a comunicação: para o filósofo, o significado de uma palavra se dá no uso. Eu por exemplo não sei definir “amor”, mas sei o que a palavra significa. E melhor ainda, sei utilizá-la de forma eficaz! Sei distinguir “amor” de ciúme, de carinho, raiva, etc. E isso não me leva a pensar que sei tudo sobre o amor. É possível até que se um dia eu chegasse a pensar que sei tudo sobre o amor, eu estivesse enganado; é possível que o amor se modifique ao longo do tempo e ao longo dos séculos, que seja, pois, um conceito “aberto”, não passível de ser definido.  
Assim, se alguém me perguntasse o que é o “amor”, eu não saberia dar uma definição, mas poderia tentar esboçar uma possibilidade de acesso para essa pessoa a partir de características vagas. Como é possível que essa pessoa me entenda eu não sei, e isso é motivo para muita controvérsia entre filósofos da linguagem. Mas o que quero chamar atenção aqui é a possibilidade de darmos explicações sem esgotar o objeto em uma definição “fechada”.  
Da mesma forma que não haja problemas para o conhecimento aqui, também não deveria haver o temor de que a dúvida, o desejo de explicações, descambe para um reducionismo. Porém, é o que ocorre muitas vezes, nas mais diversas áreas, mas muito comumente nas artes, especialmente em relação às chamadas artes contemporâneas, como por exemplo, a performance.
Talvez mesmo porque haja um afastamento da arte contemporânea da sociedade (seja ele justificado ou não – não cabe discutir aqui), há uma grande demanda de explicações a seu respeito, inversamente proporcional à falta delas. Pelo que dizem normalmente aqueles que são interrogados parece mesmo haver o temor acima citado, que leva muitas vezes ao desprezo pela pergunta, figurado em uma tergiversação em relação ao problema da suposta necessidade das definições demandada pela sociedade cientificista. 
Que esse temor possa ser justificado por uma idéia distorcida de que a sociedade foi realmente tão infantilizada pelo cientificismo (exceto, claro, tais pessoas), é amplamente compreensível, porém, tal atitude apenas ratifica a situação atual de afastamento das artes em relação às grandes massas, culminando não só na repulsa pelo que há de mais avançado na arte contemporânea, mas no que é pior, na sua esterilidade: naquela costumeira frase “ah, isso deve ser arte”, que no fundo significa “isso não é pra mim”. E assim, coisas como a perfomance se tornam algo para os “eleitos”, que co-participam em seu desconhecimento de uma definição rígida, mas aos quais foi dada alguma porta de entrada, talvez porque, como “eleitos”, não se temia que esperassem por uma definição “científica” de performance e lhes foram descritos traços fundamentais a seu respeito, como por exemplo, o de que não pode ser definida em um conceito fechado – o que não deixa de ser uma explicação racional, mesmo que porventura mal feita.
            E assim, podemos perguntar, por que é que algumas pessoas podem receber alguma explicação enquanto outras não? Não querendo cair em um erro comum às pessoas que realizam críticas, que é atacar supostas más intenções subjetivas, em primeiro lugar, pois, não tenho acesso a elas e em segundo porque não acredito que sejam ruins neste caso, suponho ser plausível apontar que, de qualquer forma, fatos assim servem com sucesso ao conservadorismo da sociedade dividida tradicionalmente entre as elites culturais e as massas, embora a própria performance art, como muito do que se faz hoje em arte contemporânea tenha surgido na contramão disso tudo: mas é muito mais comum do que se imagina que o conservadorismo e atitudes elitistas estejam amplamente intrincadas nas que se pretendem revolucionárias.

(Ouro Preto, 24 de maio de 2012)

domingo, 20 de maio de 2012

Crimes de greve?

Terá alguém o direito de obrigar outra pessoa a fazer algo que acredita ser justo?
       Se respondermos “não”, estaremos dizendo que nem Hitler, a Santa Inquisição, os colonizadores espanhóis e portugueses, nem Che Guevara, Antônio Conselheiro e a Revolução Francesa estavam justificados. Se, por outro lado, dissermos que “sim”, estamos aceitando que qualquer pessoa tem o direito de fazer o que quiser, desde que acredite que aquilo é justo – e isso não significa que a coisa seja de fato “justa”. Em comum entre todas essas pessoas e movimentos, é o fato de haverem um conjunto de crenças que acreditavam serem justas e que os impulsionava a fazer algo para torná-las realidade. Tanto Hitler quanto os românticos franceses acreditavam que seus ideais eram importantes e justos o suficiente para, por meio de armas, serem colocados na sociedade, mesmo que para isso precisassem massacrar quem fosse contrário.
        Se algumas pessoas têm forte tendência a aceitar que os revolucionários cubanos tinham o direito de fazerem o que fizeram, é porque pensam que esses lutavam por coisas justas, pois esses estavam se insurgindo contra um regime autoritário e injusto, enquanto que terão tendência a pensar, por exemplo, que os colonizadores da América não tinham o direito de impor aos índios seu modo de vida, por isso se tratar de uma injustiça. Mas, e se retrocedêssemos no tempo e começássemos a pensar como pensavam as pessoas daquela época, acreditando ser justo a “humanização” dos índios, por diversos e loucos motivos? E se fossemos alemães na época do surgimento do nazismo, não pensaríamos ser justo o que fazia Hitler e sua corja de assassinos? Estaríamos, pois, justificados a assassinar judeus e índios, coisas que hoje a maioria das pessoas pensa ser errado? É claro que não e é por isso que ninguém está justificado a fazer qualquer coisa somente porque pensa que essa coisa é justa. Há limites para a liberdade.
            Hoje, é muito comum pensarmos que estamos justificados a nos levantar contra quem é avesso ao ideário de esquerda. Trazendo para os acontecimentos desta semana – a greve dos professores da Universidade Federal de Ouro Preto –, pensamos estar justificados a interromper a aula de qualquer professor que esteja “furando” a greve, pois esta é justa, mesmo que assim firamos sua autonomia e sua crença de que o “justo” é que ele continue com suas aulas.
Ora, de fato, um “fura-greve” parece causar alguns danos ao movimento que acreditamos ser justo.
Em primeiro lugar, nos parece justo lutar contra o afastamento da academia da “tarefa da reflexão e da produção de conhecimento que beneficiem a sociedade como um todo. Temos uma universidade debilitada, avaliada não mais em razão de sua função social e cultural de caráter universal, mas centrada na particularidade das demandas do mercado, na pedagogia dos resultados e produtivismo” (retirado do Boletim do Comando Local de Greve, de 16 de maio de 2012). Há uma série de pesquisas que se dedicam a demonstrar que o Ensino, reduzido ao seu valor instrumental, acaba por formar pessimamente seus alunos, entre os quais indico o texto do professor do departamento de filosofia da Universidade Federal de Ouro Preto, Desidério Murcho, “Pra que serve o ensino?” (disponível em: http://criticanarede.com/ens_valor.html).
Um dos objetivos principais da greve é forçar uma discussão com o governo a respeito da má qualidade de ensino e produção de pesquisa e conhecimento praticada hoje nas universidades públicas brasileiras, uma vez que não há no nosso país o debate público de idéias, sobre bases racionais, senão quando há uma pressão da opinião pública ou alguma interrupção de serviços.
            Nesse sentido, a proibição de qualquer atividade de ensino durante a greve – decidida sob deliberação democrática dentro da Associação dos Docentes (ADUFOP), isto é, mediante uma votação em que a maioria ganha –, atende ao seguinte pensamento: a ininterrupção das atividades de ensino por parte de algum professor ou de um grupo de professores pode enfraquecer o movimento, tanto perante a opinião pública e a imprensa, como causar insegurança. De fato, o movimento grevista tem mais força de negociação e discussão com o governo caso seja coeso.
Talvez possamos questionar se a decisão de um ou outro professor de não aderir à greve, pode realmente causar dano tão grande ao movimento: aparentemente não, desde que não se torne uma prática largamente realizada. E assim, analisando o peso dos danos individuais, parece que o dano à liberdade do professor é maior do que o infligido ao movimento de greve. Podemos sim, acreditar que tal professor age erroneamente, pois não aceita a autoridade do que foi decidido democraticamente, e assim, transgride a “lei”. É assim que as coisas funcionam em uma democracia e tal professor deve respeito ao que foi decidido em assembléia, tenha ele participado dela ou não. Mas por outro lado, ao longo da história, consideramos como “heróis” indivíduos que se levantaram contra decisões da maioria, por considerá-las injustas – não me parece o caso, mas a humanidade sempre se enganou a respeito de coisas parecidas.  
            Porém, um professor que decide dar aulas durante o período acadêmico, à revelia da suspensão do calendário acadêmico, acaba por prejudicar aos alunos, uma vez que este terá ainda outras disciplinas para terminar quando do fim da greve. Sem contar que o aluno deverá aceitar essa decisão do professor por sua figura de autoridade e por temor de ser “marcado”. E aqui há um dano sério à liberdade do aluno.
      Assim, nos parece totalmente justo e justificado proibir o “fura-greve” de exercer atividades de ensino (lembrando que atividades de pesquisa, orientações e algumas aulas são permitidas, mediante informa à ADUFOP) – e isso eu digo àqueles que como eu apóiam a greve e se sentem ofendidos com os “fura-greve”.
     Ora, mas se estamos justificados a fazer isso, estariam outros grupos que se organizassem democraticamente também justificados a, por exemplo, obrigar os professores a retornarem às aulas, pois isto lhes parece justo? Se os discentes houvessem, ao invés de apoiado a greve, ido contra ela por pensar que ela fere seus direitos, poderíamos retirar os professores de seus lares e sob gritos levá-los até dentro da sala de aula? 
        É obvio que não pela lei, já que há o direito à greve por parte dos professores, enquanto não se pode forçar seu fim senão por alguma decisão judicial. Mas enquanto falamos de liberdade e justiça em um sentido mais profundo que nem sempre coaduna com o que está expresso na constituição – várias vezes considerada injusta e por isso mutável –, podemos perguntar por um direito mais amplo de qualquer pessoa fazer aquilo que bem entenda, desde que isso não cause danos a outrem, o que parece totalmente defensável.
         E aqui há uma grande dificuldade de avaliarmos quem tem mais direito, uma vez que a prática generalizada de “furar” a greve pode causar grandes danos ao movimento e aos alunos, como também a imposição da greve por sobre os “fura-greve” causa também um dano à sua liberdade pessoal.       
          A única saída que consigo pensar para isso é o diálogo com os fura-greve, de forma a tentar convencê-los – que na realidade é a diretriz que o Comitê de Greve se propôs a seguir. Porém, caso contrário, precisaríamos esquecer os problemas filosóficos, aceitar que podemos errar, e aceitar a injustiça que é imanente à democracia majoritária: talvez nunca ao longo de sua história tenha havido consenso a respeito de nenhuma de suas decisões e isto significa, em ultima instância, que sempre houve quem tivesse sua liberdade diminuída em relação a algum assunto. Porém, não conheço outra forma de se modificar as coisas.
Neste caso, que vença a democracia... E neste momento, ser democrático é respeitar o que foi e for decidido nas Assembléias de Greve.        

(Agradeço aos grandes amigos Aluízio Couto e Sagid Salles pelos questionamentos – na verdade grande parte dos que estão acima – que deram fruto a esse texto, com o qual eles provavelmente não concordarão. E assim discordaremos mais uma vez, e mais uma vez discutiremos. Mas é assim mesmo que se faz filosofia seriamente: talvez a maior demonstração de respeito à Liberdade e à Tolerância que já tenha existido!)

(Ouro Preto, 20 de maio de 2012)