A
nova "esquerda" entra numa paranoia eleitoral tão grande, uma
preocupação com o poder tão grande, que é incapaz de qualquer defesa a
pessoas que são oprimidos ou sofrem injustiças de governos que não sejam
do PSDB ou alguma coisa parecida, como é o caso dos atingidos pela
copa. Veem o mundo segundo a lógica "se todo mundo falasse isso,
perderíamos a eleição" e se tornam por isso tão insensíveis ao
ideário clássico da esquerda, as minorias e os oprimidos que não são
contemplados pelos seus programas ou políticas públicas, que agem como
aqueles que eles criticam.
É possível resolver tudo de uma vez?
Não. Eles vão um dia chegar até essas pessoas a quem hoje eles não
chegam? É possível que sim. Mas fingir de cego e surdo com vistas
eleitorais é digno de reprovação sempre e não torna o país melhor.
Avanços "nunca dantes" conquistados são centenas e só a nova "esquerda"
poderia traze-los agora, fato. Mas não somente disso que se trata e
fazer política não se resume a isso.
Aí eles se perguntam: "mas,
cara, você vai votar em quem então? Nos tucanos?!". Óbvio que não. Mas,
novamente, não é somente disso que se trata. Política não é "em quem eu
você vai votar", mas o que você defende, pelo que você luta. Os partidos
gastam milhões em propaganda, ninguém precisa ser refém da eleição e
não ser livre para expressar sua opinião.
(Belo Horizonte, 27/04/2014)
Já perdi muitas anotações em gavetas. Este blog deve ser mais seguro! A academia, o trabalho argumentativo, a pesquisa bibliografica (com certeza, muito importantes), quase nos impedem de fazer filosofia, de pensar livre e interdisciplinarmente. Temas outros, por vezes mais importantes, ficam excluídos por falta de tempo, de percepção e vontade. Esses escritos são aquilo que não quis deixar perder no fundo da gaveta e da vida, mesmo sob o risco de ser bobo, como todo pensamento embrionário é.
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domingo, 27 de abril de 2014
quarta-feira, 19 de junho de 2013
Novos personagens no Game of Thrones brasileiro
Nessa última semana as
coisas têm acontecido em uma rapidez impressionante. No máximo há dois dias uma
percepção geral tomou conta de todos que estão ativos nos protestos: a falta de
orientação política e ideológica do movimento. Rapidamente surgiram muitos e
ótimos textos sobre o assunto e sobre o risco da cooptação do movimento por
bandeiras da direita e sobre a dispersão em uma profusão de ideias, que tornam impossível
qualquer reivindicação séria.
Dois dos melhores
textos são o de Miguel do Rosário e o de Natacastro (links abaixo).
Levando essa percepção dos
blogs para a ação concreta, os movimentos, pelo menos nas capitais, estão buscando
levantar reivindicações gerais e coloca-las em pauta, traçando um plano de
metas, bem como uma agenda dos protestos, uma vez que estes estão surgindo a
partir de várias direções, causando uma confusão de informações (eventos diferentes
nos mesmos horários, boatos sendo reproduzidos, mentiras, etc.).
Porém, conforme vão surgindo
as reivindicações nos papéis e as pessoas com experiência em movimento político
vão se tornando mais ativas neste processo, o grosso dos manifestantes se
ressentem.
Conforme se vai dando bois,
isto é, quando se transforma a indignação em propostas palpáveis, começam a
surgir os insatisfeitos. O que é absolutamente compreensível e plausível (sentimento
do qual partilho) e que ocorre por, pelo menos, duas coisas: primeiro, a
percepção que mesmo que tivéssemos cem ou mil pautas de reivindicações e que
estas fossem lindamente alcançadas, ainda não seria suficiente, porque, mesmo
quem não sabe do que se trata, deseja reformas estruturais, o que, em ultima
instância significa revolução, pacífica ou não.
Isso fica claro nas
páginas dos eventos dos protestos. Nunca é o suficiente: sempre falta isso ou
aquilo. E isso traz uma novidade a tudo isso que está ocorrendo: o surgimento
de novos personagens, antes desorganizados (é preciso reconhecer que ainda
desorganizados), algo espontâneo e democrático, pessoas que tem demandas
próprias que, acreditam, não estão contempladas em demandas anteriores, seja de
movimentos, seja de partidos.
E
aí, entra a segunda causa: a desconfiança pelo oportunismo dos partidos,
sindicatos e coletivos. Ora, quem faz parte de algum movimento ou fez parte,
sabe que há algo de justificado aí. Mesmo que alguém não queira reconhecer como
oportunista a si próprio ou ao grupo do qual faz parte, pode reconhecer isso em
seus inimigos políticos. Afinal, não é a toa que muitos grupos não batam muito
bem: todos se acusam de oportunismo.
Para o primeiro
problema, é preciso encontrar soluções que contemplem diversas reivindicações
por serem mudanças mais radicais e de base, da qual uso como exemplo a reforma
política, que atinge, entre outras coisas, os contratos absolutamente imorais
com empresários, inclusive do ramo do transporte pública e que encarecem a
passagem e sucateiam os serviços, desvio de verba pública, pessoas que não nos
representam em cargos importantes, etc.
Para o segundo, sindicatos,
coletivos e militantes de partidos, precisem, talvez, retroceder sob pena de
colocar o próprio movimento em risco e voltarmos a como era antes, com
movimentos pequenos e dispersos. O que talvez não seja tão grave se, de fato, não
forem oportunistas e se o movimento os representa. É injusto, porque éramos as
pessoas que desde sempre estivemos lutando? É errado e burrice? Sim, mas fazer
o quê se a politicagem afastou da política os que enfim acordaram...
Entretanto, é fato que
o movimento precisa de organização, coordenação, pessoas que entendam de
política, porque, como diz meu amigo Wernner Lucas, “política não é pra
amadores”. É preciso conhecer e combater artimanhas, conhecer números,
estatísticas e quem é quem na guerra dos tronos. E nisso, aqueles que estão na
luta há mais tempo podem atuar (para fazer jus ao título do texto: se não entendermos
o que acontece em cada canto de Westeros e quisermos nos meter em política e ter como guia simplesmente a vontade e a honra, se
somos novos no pedaço como um Ned Stark, teremos uma morte violenta). E ninguém
melhor neste caso que os sindicatos, coletivos e militantes de partidos.
Porém, isso é muito
diferente de se ter lideres! Os militantes experientes precisam realmente
reconhecer que estes novos personagens não são massa de manobra, bem como é preciso
reconhecer que, mesmo que o movimento tenha surgido de grupos específicos, ele
não mais pertence a ninguém.
Agora, as pessoas que
tem horror a partidos, a coletivos, a sindicatos, a organização e coordenação
precisam, por sua vez, reconhecer, que, quer queira, quer não, vai chegar uma
hora que algumas pessoas vão ter que serem destacadas (o que é diferente de se “destacar”,
embora a mídia vá fazer de tudo para que isso aconteça). Se alguém realmente luta
nesse movimento por mudanças, vai chegar a hora de negociar, e não se negocia
com milhares de pessoas, mas com representantes. Vão ter que aprender que é
preciso alguma unidade, porque alguém precisa centralizar tudo o que está acontecendo
e tudo o que se deseja. E vão ter que aprender que nem toda reivindicação faz
sentido e que muitas são contraditórias com outras. E aí, uma pessoa que
defende bandeiras da direita, por exemplo, vai ter que perceber que este
movimento e estes protestos não são um oba-oba-vou-parar-de-xingar-no-twitter:
as reivindicações principais são a pauta típica da esquerda a muitos anos!
Vai ter oportunista
querendo se aproveitar disso? Sim, mas estes são facilmente reconhecidos. O
pior problema é que, principalmente, vai ter gente querendo massagear o próprio
ego; militante velho querendo ser reconhecido como guru do movimento... Porém,
isso é natural. Da mesma forma tem adolescente querendo aparecer mais que
outros nas discussões dos eventos do facebook, querendo ser dono da verdade,
etc.
A única forma de se
combater isso é a vigilância coletiva. Aprender a fazer algo que devíamos ter
sempre feito com nossos representantes políticos: trata-los e faze-los entender
que não são superiores, chefes, lideres – são meros representantes.
Novamente: vai ter
gente cometendo abusos egóicos? Sim, mas isso é inevitável e, como um todo, a coerência
e a consistência do movimento vai se dar de forma dialética, pois não há outra
forma de se lidar com tudo isso.
Link para os textos acima citados (Coincidentemente,
ambos tem café no meio):
http://cafecomnata.wordpress.com/2013/06/17/ei-reaca-vaza-dessa-marcha/
(Belo Horizonte, 19 de junho de 2013)
(Belo Horizonte, 19 de junho de 2013)
quinta-feira, 8 de março de 2012
para o dia internacional das mulheres
Nesse dia internacional das mulheres, desejo que a tão sonhada igualdade continue sendo cada vez mais consquistada, não só no ambito formal, mas de fato... Uma igualdade que signifique que as mulheres e homens não se pensem como algo que tende a alguma coisa, simplesmente pelo fato de serem de sexos diferentes.
Mas, mais do que isso, desejo mesmo que as mulheres não se tornem homens. Não que elas não tenham direito a isso; pelo contrário, que elas estejam cada vez mais se aproximando da figura do homem machista, babaca, insensível, é representativo de que cada vez mais as mulheres estão conquistando direitos e perdendo outros: o direito de serem mulheres femininas. Direito este também perdido pelos homens.
Se históricamente a sensibilidade, a doçura, o cuidado, foram relegados ao "feminino", e isto constituiu em grande parte a "prisão de gênero", do qual as mulheres eram impedidas de escapar; por outro lado, a saída menos desejável pra isso é que as mulheres se tornem homens - e assim teriamos um retorno ao mundo masculino.
O ideal seria que a igualdade fosse consquistada também numa mudança dos homens e por uma dissolução das barreiras de gênero, sem que isto implique em perda do que há de melhor nas mulheres e nos homens - isto é, que os homens se tornassem mais parecidos com as mulheres e vice e versa.
(Ouro Preto, 08 de março de 2012)
quarta-feira, 14 de dezembro de 2011
Quanto a pensar e emitir opinião
Se as escolas antigamente valorizavam o aluno comportado e “quieto”, que meramente ouvia, hoje parece haver, não só na escola como popularmente, um incentivo a que todos falem e expressem sua opinião: a que todos tenham uma opinião sobre todo e qualquer assunto. Talvez visando o incentivo ao uso crítico e autônomo do pensamento
Ora, mas ter uma opinião é muito diferente de fazer uso crítico do pensamento, isto é, de pensar realmente.
Ora, mas ter uma opinião é muito diferente de fazer uso crítico do pensamento, isto é, de pensar realmente.
Os blogs e redes sociais da web são lugar privilegiado para que se possa notar isso. Enquanto estes dotam os indivíduos do poder de dizer ao mundo aquilo que pensam, por outro lado, pouco se vê alguém que de fato faça uso de um pensamento crítico: é sempre mais do mesmo, grosserias, arrogâncias, opiniões heterogêneas “compradas” para combinar com idiossincrasias... como se aquilo que se diz fosse obvio – “como ninguém pensou nisso ainda?!” – e o restante não passasse de idiotices.
Trazendo para o exemplo pessoal – meu estudo da filosofia de Theodor Adorno –, vejo atitudes semelhantes em relação ao incomodo da teoria crítica e seu diagnóstico, especialmente, da indústria cultural, amplamente divulgado no contexto brasileiro: acusações ressentidas de que Adorno errou ao criticar o Jazz, de que é culturalmente conservador, etc. Não farei aqui uma defesa de Adorno – há elementos suficientes em sua teoria para isto –, tampouco tais acusações me incomodam. Gostaria somente de chamar atenção para a atitude arrogante presente nisso: do “como ninguém pensou nisso antes?!”, na falta de uma mera dúvida a respeito do porque, se tal filósofo é tal facilmente “derrotado”, pessoas dedicam vidas inteiras a estudá-lo, etc. O fato de que pelo menos semanalmente alguém me dizer algo do tipo, com a mesma expressão “intelectual” no rosto, deve mostrar algo sobre isso... Em suma, o problema está na atitude pouco crítica e extremamente arrogante de se pensar o único ser dotado de razão e emitir juízos sobre os quais não parece pairar o mínimo de um pensar arrazoado: uma estupidez que se pensa inteligência.
Se a web possibilita o uso público da razão, falta para que isso ocorra, portanto, dificultá-lo. Pois do contrário, na banalidade de sua facilidade, se mostra impedido pela arrogância, pela preguiça e pelo imediatismo de se acreditar "o sujeito inteligente".
Trazendo para o exemplo pessoal – meu estudo da filosofia de Theodor Adorno –, vejo atitudes semelhantes em relação ao incomodo da teoria crítica e seu diagnóstico, especialmente, da indústria cultural, amplamente divulgado no contexto brasileiro: acusações ressentidas de que Adorno errou ao criticar o Jazz, de que é culturalmente conservador, etc. Não farei aqui uma defesa de Adorno – há elementos suficientes em sua teoria para isto –, tampouco tais acusações me incomodam. Gostaria somente de chamar atenção para a atitude arrogante presente nisso: do “como ninguém pensou nisso antes?!”, na falta de uma mera dúvida a respeito do porque, se tal filósofo é tal facilmente “derrotado”, pessoas dedicam vidas inteiras a estudá-lo, etc. O fato de que pelo menos semanalmente alguém me dizer algo do tipo, com a mesma expressão “intelectual” no rosto, deve mostrar algo sobre isso... Em suma, o problema está na atitude pouco crítica e extremamente arrogante de se pensar o único ser dotado de razão e emitir juízos sobre os quais não parece pairar o mínimo de um pensar arrazoado: uma estupidez que se pensa inteligência.
Se a web possibilita o uso público da razão, falta para que isso ocorra, portanto, dificultá-lo. Pois do contrário, na banalidade de sua facilidade, se mostra impedido pela arrogância, pela preguiça e pelo imediatismo de se acreditar "o sujeito inteligente".
Dotar formalmente o indivíduo de um aparato crítico, como o que a lógica filosófica traz, se tornaria, pois, importante. Porém, não bastaria: a mera detenção de instrumentos para o “pensar correcto” não torna ninguém crítico e produtor de pensamentos realmente autônomos. Isto é, um expert em lógica não necessariamente pensa: raciocinar, utilizar formas ou formulas e aplicá-las por sobre o objeto a ser pensado é muito diferente de pensar.
É preciso que o indivíduo (agora “sujeito”) passeie pela complexidade do pensamento, por suas mais diversas perspectivas e nuanças, para perceber que nada é tão simples quanto alguém pretende que seja; que se dedique a entender argumentos complexos, para que perceba a densidade mesma dos objetos e dos diversos assuntos; e assim, que possa construir reflexões realmente inteligentes, capazes de ir além do “sempre o mesmo”, do raciocínio simplista e dualista, do “não gosto, portanto não é bom e por isso compro tal argumento”. E assim estará pensando verdadeiramente - a partir talvez do pensamento dos outros - mas de forma realmente crítica e autônoma. Isto, se pode aprender tanto conversando com os mais velhos, com pessoas “simples” porém sábias, quanto estudando filósofos como Adorno, Horkheimer, Marcuse, Hegel, Platão, Deleuze, Hume, Kant... Isto é, estudando a história do pensamento filosófico ocidental, no embate de opiniões realmente complexas.
Para evitar dúvida: trata-se, pois, de dificultar a expressão de idéias, não pela censura, mas buscando dar a todo indivíduo a possibilidade de pensar por si mesmo e não somente reproduzir o que outrem pensa: que pode ser, inclusive, contrário àquilo que o indivíduo realmente pensaria.
É preciso que o indivíduo (agora “sujeito”) passeie pela complexidade do pensamento, por suas mais diversas perspectivas e nuanças, para perceber que nada é tão simples quanto alguém pretende que seja; que se dedique a entender argumentos complexos, para que perceba a densidade mesma dos objetos e dos diversos assuntos; e assim, que possa construir reflexões realmente inteligentes, capazes de ir além do “sempre o mesmo”, do raciocínio simplista e dualista, do “não gosto, portanto não é bom e por isso compro tal argumento”. E assim estará pensando verdadeiramente - a partir talvez do pensamento dos outros - mas de forma realmente crítica e autônoma. Isto, se pode aprender tanto conversando com os mais velhos, com pessoas “simples” porém sábias, quanto estudando filósofos como Adorno, Horkheimer, Marcuse, Hegel, Platão, Deleuze, Hume, Kant... Isto é, estudando a história do pensamento filosófico ocidental, no embate de opiniões realmente complexas.
Para evitar dúvida: trata-se, pois, de dificultar a expressão de idéias, não pela censura, mas buscando dar a todo indivíduo a possibilidade de pensar por si mesmo e não somente reproduzir o que outrem pensa: que pode ser, inclusive, contrário àquilo que o indivíduo realmente pensaria.
(Ouro Preto, 13 de dezembro de 2011)
quinta-feira, 15 de setembro de 2011
La vie en Rose
O quanto o mundo dominado pela razão que se acredita eficiente somente a partir de uma frieza e imparcialidade (falsas), constituído e construído a partir das proposições meramente masculinas em detrimento do feminino (e nesse caso nem precisamos fazer diferença de sexo biológico, embora essa também fosse verdadeira, não obstante a falsidade dessa divisão), exclui a sensibilidade e o não idêntico (em termos principalmente do diferente da maioria estatística), poderia ser atestado, especialmente pelos indivíduos do sexo masculino, quando estes passam algumas horas somente rodeamos por homens. A conversa nos meios masculinos (barbeiros, botecos, repúblicas masculinas, etc.) é a mais banal possível, a mais comum; inclui desde futebol, até piadinhas homofóbicas – o que de fato não nos dá uma grande amplitude de assuntos, talvez dois ou três a mais. Se a conversa é em frente à TV, não raro será interrompida por uma exclamação grosseira de um estranho desejo sexual pelas “gostosas peitudas” ou “bundudas gostosas”, seguido por adjetivos como “vagabunda”, “vadia” entre tantos outros; programas que fazem chorar serão sempre “chatice”, seguidos de olhares pra ver quem se emocionou; o que não é diferente em relação aos programas educativos e politicamente corretos: “chatice”.
O assunto, quando em bando (não é demais lembrar que “bando” e “bandido” têm a mesma etimologia), nunca será sobre “fraquezas”: não há espaço para desabafos, amores, tristeza... Enfim, nunca se podem demonstrar sinais de “bixice”. De tanto conviverem entre si, acrescente-se, reprimidos, acreditando que um pouco de elegância na fala, na postura corporal, um pouco de individualidade que se permita “fraquezas”, depõe contra sua masculinidade (o que também é estranho que alguém deseje ter), deixam mesmo de conseguir se expressar, de entender a si mesmos, até não sentir mais, e então, não entenderão mais nada: para que são importante políticas públicas de inclusão, leis contra preconceitos, etc. Em detrimento disso tudo, serão favoráveis às políticas que propõem solucionar tudo a partir da violência, como a partir do BOPE, do controle de natalidade para famílias de baixa renda, da diminuição da menoridade penal, etc. – medidas tipicamente masculinas, idênticas ao longo da história. Por isso uma saída péssima seria que o feminismo (felizmente cada vez mais refinado) se assemelhasse ao machismo, que a imagem da mulher “moderna” reproduza a do homem prático, do empresário de sucesso, do individuo bem resolvido, do homem rígido, isto é, da insensibilidade, da dominação de si em detrimento da vida pessoal.
A boa noticia é que o “macho dominante” tende, por enquanto, a desaparecer. Sinais disto dão a chamada “geração Y”, com seus (nossos) blogs, e seu “egoísmo” e a crescente onda do politicamente correto, que ao menos publicamente envergonha (pela primeira vez na história) o reacionarismo típico dessas figuras.
O título dessa nota cantava Edith Piaf. E assim dava dicas para o vindouro desenvolvimento dessa questão...
O título dessa nota cantava Edith Piaf. E assim dava dicas para o vindouro desenvolvimento dessa questão...
(São João del Rei, 5 de setembro de 2011)
quarta-feira, 3 de agosto de 2011
uma crítica à Lady Gaga
(Lady Gaga no clip de Telephone)
Lady Gaga é uma pessoa bem interessante, uma vez que encontra adeptos (fãs) que vêm de todos os segmentos (leia-se, os cults e os “comuns”); por isso não é difícil ver alguma pessoa do meio artístico, filosófico e coisas que tais (cults) louvando-a como algo que escapa ao esquema da música de massas (da chamada indústria cultural – termo que facilita muito o entendimento); agindo em relação a ela como algo a que podem se dar ao luxo de se igualarem às massas, de perder a postura blasé e se “divertir” sem compromisso (algo que a música cult não o permite com tanta desenvoltura).
Sem dúvida alguma há algo diferente na cantora (ou estrela; não sei bem se ela canta ou se é tudo eletrônico, já que em cada música a voz dela é diferente); o fato de parecer realizar uma crítica em suas letras e clips, algo que as suas semelhantes não o fazem, é notório. É por isso que uma vez um crítico de arte de um jornal mineiro disse que Lady Gaga realizava uma “resistência dentro do sistema”, termo que vêm do francês Deleuze.
Eu tendo a discordar e gostaria de ter a oportunidade de desenvolver mais o assunto, tendo em vista o termo de indústria cultural e o de apropriação que Adorno diz que ela realiza, que é o que parece ocorrer aí – mercadoria disfarçada de arte.
O que me dá indicativos de que algo do tipo ocorre aí é uma questão da recepção de suas obras. Quando o público cult recebe suas músicas/clips ele, obviamente, nota a crítica, a ironia que existe ali – até porque estão acostumados/treinados a encontrar esse tipo de coisa (são formados, estudados); mas me parece (com base em percepção empírica) que os fãs de música eletrônica pop (aqueles que ouvem tanto Gaga – uma feminista – quanto aquelas pessoas que ela parece criticar – mulherzinhas como a Britney) não parecem ser modificados por isso; não parecem absorver aquela crítica; se mudam é algo puramente formal: ou seja, copiam as roupas, cabelos, gestos, tornam-se uma Lady (com o perdão do trocadilho que possa haver aí). Se absorvem a crítica, entenderão talvez que a “raça homem” deve ser pisada.
Adorno fala sobre a importância da forma estética, que é o mecanismo através do qual a obra pode realizar uma crítica sensível da sociedade... É o que parece faltar no caso da Gaga: quem ouve sua música na radio e não sabe que é ela que está cantando ou não entenda inglês, não notará diferença alguma entre ela e a Britney ou a Madonna. Isto porque falta à obra uma crítica objetiva, substancial, da qual seja impossível escapar, que incomode até mesmo aquele espectador mais cético e frio – que é o que parece haver com as obras de arte.
Uma pesquisa sobre a recepção de sua obra, sobre o que faz com seus ouvintes era algo necessário para provar que ela realiza uma resistência dentro do sistema ou que não seja mais uma mercadoria muito mais bem feita que as outras, uma vez que “agrada a gregos e troianos”.
(Pouso Alegre, 03 de agosto)
(Pouso Alegre, 03 de agosto)
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