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sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Plano de Ensino e Aprendizagem de Filosofia – Enrique Marcatto Martin



Plano de Ensino e Aprendizagem de Filosofia – Enrique Marcatto Martin

A seguinte proposta, que leva em conta a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional - LDB 9.394/96, a Constituição Brasileira, o Estatuto da Criança e do Adolescente - ECA, o disposto nos Parâmetros Curriculares Nacionais – PCN, as Orientações Curriculares para o Ensino Médio – Ciências Humanas e suas Tecnologias: Ensino de Filosofia (2006) e a Proposta Curricular para o Ensino Médio do estado de Minas Gerais (CBC), pretende fornecer uma explanação de minha estratégia didática, a qual considero adequada ao ensino de filosofia no ensino médio. Entretanto, não constitui uma forma rígida e imutável de prática pedagógica, sendo adaptável a várias situações educacionais e propostas pedagógicas específicas. Desta forma, não pretende substituir os documentos acima e muito menos a proposta pedagógica da escola na qual for aplicada.

INTRODUÇÃO
Estudar filosofia é algo que é distinto de estudar outras disciplinas como biologia ou matemática. No caso destas matérias, estudar é uma questão de entender e assimilar os resultados alcançados pelos biólogos e pelos matemáticos, conforme passados pelo professor e raciocinar sobre eles. Mas em filosofia não há algo como resultados a serem ensinados e compreendidos pelos alunos. Isto porque quase tudo aquilo que é estudado pelos filósofos, isto é, os problemas filosóficos, estão em aberto; isto significa que não há uma concordância entre eles quanto à sua solução. Há várias respostas diferentes para as diversas perguntas e problemas filosóficos com mais de mil anos continuam a serem discutidos, levando a cada vez mais problemas, aparentemente, também sem solução simples.
Desta forma, há duas formas costumeiras de se estudar e de se ensinar filosofia:
a) Estudar/ensinar a história da filosofia
b) Estudar/ensinar problemas filosóficos
A primeira forma (a) tenta lidar com a filosofia como se fosse uma disciplina comum e apagar a sua especificidade, fazendo do pensamento dos principais filósofos da história seu objeto a ser compreendido e aprendido pelos alunos. Caberia ao professor, apresentar e contextualizar cada filósofo, explicar a estrutura do problema que ele lida e a resposta que dá a este.
O ensino de história da filosofia (a), razoavelmente comum, é bastante improdutivo e só será atraente para aqueles alunos já interessados previamente em filosofia, uma vez que, para a grande maioria das pessoas, não há razão alguma para se querer saber o que disseram pessoas há muitos séculos atrás sobre assuntos que não lhes interessam – ainda que estas pessoas sejam famosas. 
A segunda forma (b) consiste em apresentar os grandes problemas filosóficos e as respostas que alguns pensadores ofereceram a elas. Esta é mais eficaz que a primeira e mais interessante, uma vez que, normalmente, as questões clássicas de filosofia são aquelas perguntas que naturalmente as pessoas também se fazem. Portanto, esta forma pode gerar discussões em sala de aula e maior participação dos alunos. Deste modo, é inicialmente mais atraente aos estudantes, pois, interessados nos problemas filosóficos irão querer saber quais respostas os filósofos apresentaram a eles.
Esta tática, porém, é temporalmente limitada, já que é exaustiva e acaba por gerar grande incomodo por parte dos alunos. Além disso, as discussões, por mais divertidas que possam ser para os alunos, tendem a se tornarem vazias de conteúdo, pois esses interpretam que basta expressarem suas opiniões, reproduzir ou não a opinião de um filósofo e concordar ou não com ela. Há ainda um problema principal e que se aplica ainda ao ensino de história da filosofia (a).

A UTILIDADE DA FILOSOFIA
                A questão da utilidade da filosofia é quase tão antiga quanto à própria filosofia e a demanda por conhecimentos considerados úteis atinge não só o ensino de filosofia, como todas as disciplinas. Deseja-se conhecer coisas úteis, isto é, que sejam instrumento para algo. Conforme descreve Desidério Murcho[1], atualmente na educação algumas correntes instrumentalistas são 1) a educação para a vida ativa; 2) a educação para cidadania; e 3) a formação para o mercado de trabalho.
                Costumeiramente, os professores de filosofia aprenderam a lidar com esta demanda problematizando a própria definição do que venha a ser “útil” e os motivos pelos quais se procura sempre a utilidade. De fato, é importante que tais coisas sejam colocadas em causa, uma vez que a busca incessante por aquilo que é útil atende a critérios imediatistas que muitas vezes são equivocados. Muito do que é útil em um determinado momento não o é em longo prazo. Em nosso território específico, muitos conhecimentos práticos e úteis em curto prazo já não servem para nada em pouco tempo, enquanto conhecimentos centrais, como a matemática não aplicada e a gramática, não deixam de ser úteis assim tão facilmente, uma vez que formam a base para outros conhecimentos.
                Mas e a filosofia, é útil ou inútil? Ora, simplesmente saber o que disseram Platão, Aristóteles, Kant, Sartre e Heidegger sobre determinado assunto, aparentemente não tem mais utilidade para a vida ativa, para a formação da cidadania ou para a formação para o mercado de trabalho do que saber se um ator famoso é casado ou não, se não se tem interesse por estes assuntos. Um estudante que porventura queira fazer, por exemplo, um curso de direito poderá passar no exame de seleção, se formar advogado e trabalhar sem nunca saber o que disseram Aristóteles, Hobbes e Locke sobre as leis e sobre o Estado civil. Desta forma, estudar história da filosofia ou certos problemas de filosofia, e a resolução que alguns filósofos encontraram para eles, não são coisas imediatamente úteis.
                Porém, a partir da problemática que envolve a “utilidade” podemos assumir que não há problema algum nisso e que saber algo que não serve para nada prático não é nenhum problema. Qual é o problema em saber algo ainda que este algo não sirva para nada? Muitos professores partem desta premissa e enveredam pelas formas (a) e (b) de ensino de filosofia: aprender filosofia será, então, compreender ou o pensamento dos grandes filósofos (a) ou compreender os grandes problemas filosóficos e suas resoluções (b), o que por si só já tem valor.
                Entretanto não seria melhor para os alunos se além de obter este conhecimento, ele servisse para alguma coisa, ainda que em longo prazo? Será verdade que a filosofia é inútil?
                Bem, é possível que mesmo o ensino de história da filosofia ou de problemas filosóficos possa ser útil em alguns casos, em longo prazo, mas em um sentido mais fraco, pois o simples movimento do aluno de se esforçar para aprender, compreender e refletir sobre o assunto é importante, como é importante estudar matemática independentemente de utilizá-la ou utilizar parte dela no futuro.
Entretanto, é preciso levar em consideração que, para os alunos, inicialmente, não faz sentido saber o que filósofos e pensadores de séculos atrás disseram, bem como alguns questionamentos parecem infundados ou sem sentido. Eles têm preocupações diferentes e mais imediatistas (ainda que plenamente justificadas), como saber o que irá cair no Exame Nacional do Ensino Médio ou em algum concurso, bem como saber se o que aprendem terá aplicação na vida prática. Ora, ainda que a filosofia estudada nestes formatos possa ter um pequeno aproveitamento prático e que possa ter alguma aplicação na preparação para tais exames, não será a explanação sobre este aspecto, em uma ou mais aulas introdutórias da disciplina de filosofia, que os fará ter interesse durante o resto do ano pela matéria.
                É possível, porém, que a filosofia, bem trabalhada desperte, não só o interesse dos alunos, como concorra para o desenvolvimento de competências completamente úteis a curto e em longo prazo. O ensino de filosofia só será inútil ou, no máximo, útil neste sentido fraco se se reduzir às duas formas (a) e (b) de ensino. Ou seja, ainda que a filosofia não necessariamente precisasse atender a tais demandas, como a matemática não precisaria, ela pode ser mais bem trabalhada e tornada útil, bem como a utilidade da matemática pode ser maximizada, quando se estuda coisas que realmente serão utilizadas na vida prática – o que não apaga o fato de que são importantes independentemente de sua utilidade.

EDUCAÇÃO PARA A AUTONOMIA
                Há outra alternativa para o ensino de filosofia que não elimina as duas anteriores e as absorve como momentos da prática de ensino, que é algo que se assemelha a uma espécie de engenharia de ideias[2] ou de ciência do pensamento. Esta forma de conceber a filosofia não se reduz a um conjunto de conhecimento estabelecido pela história da filosofia a ser apreendido pelos estudantes, passado e cobrado pelo professor, mas sim se utiliza dos elementos desta para refinar a capacidade dos estudantes de raciocinar. Tira proveito também dos problemas filosóficos e das discussões que eles geram, mas não se reduz a apresenta-los e a incentivar que os alunos discutam.
                Este modo de ensinar filosofia dá atenção ao pensamento dos principais filósofos visando explicitar seus argumentos e o que está em jogo em cada discussão filosófica, bem como as nuances do pensamento. Assim, de partida elimina a divisão entre o ensino de história da filosofia e dos problemas filosóficos, como também não se reduz a sua mera exposição, pois visa à outra coisa. 
Não se trata também do mero ensino das formas de raciocínio e argumentação, isto é, de lógica, mas do uso disso para melhor apreensão do material histórico.  
Vamos ver como isso se dá.

METODOLOGIA
                Os seguintes itens, em condições ideais, seguem uma ordem cronológica, mas, de acordo com a necessidade, esta pode ser modificada ou os itens podem ser realizados simultaneamente.
               
1) Diagnóstico
É importante, de saída, se fazer um diagnóstico de assuntos provocadores, isto é, problemas que fazem parte do repertório dos alunos, como assuntos atuais que encontrem eco em discussões filosóficas[3] – uma tarefa razoavelmente simples, uma vez que há uma grande quantidade de opções em todas as épocas da filosofia e subconjuntos de áreas e problemas da filosofia.   
                O diagnóstico é importante, pois será fundamental eleger um assunto em voga para retirar a filosofia de um lugar afastado da realidade dos alunos e gerar interesse.
                O diagnóstico deve ser realizado no primeiro contato com os alunos, por meio de conversa informal e apresentação da disciplina, mas precisa ser refeito a todo tempo e deve balizar o desenvolvimento da disciplina.

2) Introdução de elementos de lógica e argumentação
                Fundamental para o desenvolvimento da disciplina e para que os alunos aprendam a reconhecer os argumentos e elementos destes e, em contrapartida, aprendam a argumentar e a contra argumentar.
                A introdução de elementos de lógica e argumentação deverá ocupar algumas aulas, mas, assim como o diagnóstico, deverá ser realizada a todo tempo e a cada nova discussão, visando explicitar o uso da lógica a partir da argumentação dos alunos e dos filósofos.

3)  Introdução aos problemas de filosofia e seus principais pensadores
                Uma vez realizado o diagnóstico e eleitos os assuntos provocadores, a matéria deverá ser lecionada explicitando a sua relação com eles, isto é, aproximando algum tema e pensadores específicos ao assunto, mostrando soluções de forma dinâmica e dando grande foco ao item 2.
                Este item é inseparável do seguinte.

4) Discussão dirigida de assuntos provocadores             
Como o tema das aulas busca se relacionar a uma realidade próxima dos estudantes, estes deverão ser estimulados a apresentar suas opiniões a respeito do assunto tratado. O papel do professor será questiona-los e discutir suas opiniões exigindo que apresentem bons argumentos e melhores os raciocínios. Neste ponto, o pensamento de filósofos e problemas filosóficos clássicos que se relacionem com o tema da aula, serão elementos importantes para que os estudantes melhores suas opiniões.
A discussão não se reduzirá, pois, à expressão de opiniões, mas se dirigirá ao aumento qualitativo de rigidez argumentativa e, portanto, a um ganho qualitativo na capacidade dos estudantes a produzirem raciocínios cada vez mais elaborados, que deverão ser confrontados (e somados) às opiniões dos filósofos. Isto é, aqui o aluno passa a aprender com os filósofos (e não mais sobre os filósofos) a como melhorar as suas próprias ideias.   
A discussão não se limita à discussão oral realizada ao longo das aulas, mas também deverão ser realizadas atividades de ensaios filosóficos, nas quais serão estimulados a defenderem uma posição e apresentarem argumentos para ela. 

OBJETIVOS
      Assim, o principal objetivo que se espera atingir é contribuir para que o aluno desenvolva as competências necessárias para atingir a Autonomia intelectual, que é o objetivo geral deste plano de ensino.
O aumento da capacidade argumentativa e o confronto de ideias, entre as quais as dos próprios alunos, implicam em raciocínios mais bem elaborados e isso, constitui um ganho para a autonomia intelectual dos sujeitos. O que significa que os alunos desenvolverão habilidades cognitivas, reflexivas e críticas, listadas na Proposta Curricular de Filosofia para o Ensino Médio da Secretaria do Estado de Educação de Minas Gerais como as atitudes de que a filosofia contribui para que estes atinjam (objetivos específicos):
a) perceber;
b) problematizar;
c) refletir;
d) conceituar e
e) argumentar
Isto, pois, ao desenvolver a capacidade de perceber o que está em jogo em uma discussão, em um texto, em um argumento ou um problema da própria realidade, o aluno, incentivado a isso, tende a problematizar e a refletir e, a partir disso, conceituar, isto é, buscar sintetizar aquilo que pretende exprimir e defender sua posição. E isso significa autonomia intelectual que tende a refletir na própria vida dos alunos.

CONCLUSÃO
A autonomia intelectual é o serviço que a filosofia presta, propriamente dito, ou seja, a sua utilidade. Não se trata somente de um conteúdo a ser apreendido e reproduzido. A ideia é a de melhorar o raciocínio e o pensamento, através do confronto das opiniões dos alunos ou de ideias corriqueiramente postas na realidade, com o pensamento dos filósofos e com os problemas filosóficos imbricados com os temas.
Ora, mas a autonomia não pode significar apenas que o aluno dê sua opinião, é preciso que o aluno aprenda a ter boas opiniões, que aprenda a raciocinar e a defender uma posição. Portanto, ter “boa opinião” não significa que o aluno deva pensar aquilo que o professor considera que é correto – isso seria o contrário da autonomia. É necessário que o aluno pense por si só e que aprenda a pensar. Neste sentido, ter uma boa opinião significa ter boas razões para pensar algo e saber defender o que se pensa e, ainda, saber reconhecer os erros de seu próprio raciocínio e mudar de opinião, se, e somente se, lhe forem apresentadas boas razões para isso.  
Assim, é importante aprender a discutir as diferentes teorias dos filósofos, ao invés de nos limitarmos a compreendê-las. Aprender a discutir implica, em grande parte, a aprender a argumentar e a raciocinar.
Quando o aluno desenvolve estas competências, se pode dizer com segurança que ele estará mais preparado do que antes para enfrentar novas questões e problemas. Isto significa que a filosofia não se restringirá a ser certo conjunto complexo de elementos afastados da realidade e que têm uma utilidade meramente potencial.
Em primeiro lugar, a própria realidade e as questões que ela nos coloca é que serão a matéria a ser aproximada da filosofia; em segundo, a filosofia, será plenamente útil e afiada com as demandas da sociedade: “Ensinar Filosofia, no final do séc. XX e começos do século XXI, passa a significar formação crítica e torna-se um elemento decisivo na redescoberta da educação para a cidadania (recuperando o cerne do movimento socrático-sofístico da Atenas do séc. V a.C.)” (Proposta Curricular para o Ensino Médio de Filosofia do Estado de Minas Gerais, p. 7).
Desta forma, a autonomia intelectual é a base para outras competências exigidas pelos mais diversos segmentos da sociedade e engloba as diferentes concepções de ensino, desde a de que o ensino deve preparar para o mercado de trabalho, até a de que deve formar bons cidadãos.
Não basta, pois, para isso, que os alunos tenham domínio de certo número de problemas filosóficos, mas sim que tenham as competências necessárias para perceber os elementos que estão em jogo conforme os problemas lhes são apresentados (independente de não terem nenhum conhecimento prévio a respeito deles), refletir sobre eles e saber tomar uma posição bem refletida.
                Desta forma e por fim, a avaliação neste formato de ensino não será a da quantidade e qualidade do conteúdo apreendido e compreendido pelos alunos, mas sim se estes alunos tiveram um ganho na capacidade argumentativa, na percepção de elementos da argumentação e se sabem se posicionar criticamente.

A filosofia por si só é importante, como a própria autonomia. Mas isso não significa que ambas não sirvam para nada além. A filosofia é útil também para quem não se interessa pelo tipo de conhecimento que ela constitui e não tem interesse algum em problemas filosóficos, pois o raciocinar filosoficamente implica em ganho de autonomia intelectual, uma competência fundamental para tantas exigências que se faz hoje à educação.



  


[1] Desidério Murcho, “Para que serve o Ensino?” Publicado em: http://criticanarede.com/ens_valor.html
[2] Este termo é utilizado por meu antigo professor Desidério Murcho para se referir a sua concepção de filosofia.
[3] Isto deve levar em consideração o Projeto Pedagógico da escola como um todo, bem como as séries e o conteúdo programado previamente para ser lecionado (quando for o caso). 

domingo, 20 de maio de 2012

Crimes de greve?

Terá alguém o direito de obrigar outra pessoa a fazer algo que acredita ser justo?
       Se respondermos “não”, estaremos dizendo que nem Hitler, a Santa Inquisição, os colonizadores espanhóis e portugueses, nem Che Guevara, Antônio Conselheiro e a Revolução Francesa estavam justificados. Se, por outro lado, dissermos que “sim”, estamos aceitando que qualquer pessoa tem o direito de fazer o que quiser, desde que acredite que aquilo é justo – e isso não significa que a coisa seja de fato “justa”. Em comum entre todas essas pessoas e movimentos, é o fato de haverem um conjunto de crenças que acreditavam serem justas e que os impulsionava a fazer algo para torná-las realidade. Tanto Hitler quanto os românticos franceses acreditavam que seus ideais eram importantes e justos o suficiente para, por meio de armas, serem colocados na sociedade, mesmo que para isso precisassem massacrar quem fosse contrário.
        Se algumas pessoas têm forte tendência a aceitar que os revolucionários cubanos tinham o direito de fazerem o que fizeram, é porque pensam que esses lutavam por coisas justas, pois esses estavam se insurgindo contra um regime autoritário e injusto, enquanto que terão tendência a pensar, por exemplo, que os colonizadores da América não tinham o direito de impor aos índios seu modo de vida, por isso se tratar de uma injustiça. Mas, e se retrocedêssemos no tempo e começássemos a pensar como pensavam as pessoas daquela época, acreditando ser justo a “humanização” dos índios, por diversos e loucos motivos? E se fossemos alemães na época do surgimento do nazismo, não pensaríamos ser justo o que fazia Hitler e sua corja de assassinos? Estaríamos, pois, justificados a assassinar judeus e índios, coisas que hoje a maioria das pessoas pensa ser errado? É claro que não e é por isso que ninguém está justificado a fazer qualquer coisa somente porque pensa que essa coisa é justa. Há limites para a liberdade.
            Hoje, é muito comum pensarmos que estamos justificados a nos levantar contra quem é avesso ao ideário de esquerda. Trazendo para os acontecimentos desta semana – a greve dos professores da Universidade Federal de Ouro Preto –, pensamos estar justificados a interromper a aula de qualquer professor que esteja “furando” a greve, pois esta é justa, mesmo que assim firamos sua autonomia e sua crença de que o “justo” é que ele continue com suas aulas.
Ora, de fato, um “fura-greve” parece causar alguns danos ao movimento que acreditamos ser justo.
Em primeiro lugar, nos parece justo lutar contra o afastamento da academia da “tarefa da reflexão e da produção de conhecimento que beneficiem a sociedade como um todo. Temos uma universidade debilitada, avaliada não mais em razão de sua função social e cultural de caráter universal, mas centrada na particularidade das demandas do mercado, na pedagogia dos resultados e produtivismo” (retirado do Boletim do Comando Local de Greve, de 16 de maio de 2012). Há uma série de pesquisas que se dedicam a demonstrar que o Ensino, reduzido ao seu valor instrumental, acaba por formar pessimamente seus alunos, entre os quais indico o texto do professor do departamento de filosofia da Universidade Federal de Ouro Preto, Desidério Murcho, “Pra que serve o ensino?” (disponível em: http://criticanarede.com/ens_valor.html).
Um dos objetivos principais da greve é forçar uma discussão com o governo a respeito da má qualidade de ensino e produção de pesquisa e conhecimento praticada hoje nas universidades públicas brasileiras, uma vez que não há no nosso país o debate público de idéias, sobre bases racionais, senão quando há uma pressão da opinião pública ou alguma interrupção de serviços.
            Nesse sentido, a proibição de qualquer atividade de ensino durante a greve – decidida sob deliberação democrática dentro da Associação dos Docentes (ADUFOP), isto é, mediante uma votação em que a maioria ganha –, atende ao seguinte pensamento: a ininterrupção das atividades de ensino por parte de algum professor ou de um grupo de professores pode enfraquecer o movimento, tanto perante a opinião pública e a imprensa, como causar insegurança. De fato, o movimento grevista tem mais força de negociação e discussão com o governo caso seja coeso.
Talvez possamos questionar se a decisão de um ou outro professor de não aderir à greve, pode realmente causar dano tão grande ao movimento: aparentemente não, desde que não se torne uma prática largamente realizada. E assim, analisando o peso dos danos individuais, parece que o dano à liberdade do professor é maior do que o infligido ao movimento de greve. Podemos sim, acreditar que tal professor age erroneamente, pois não aceita a autoridade do que foi decidido democraticamente, e assim, transgride a “lei”. É assim que as coisas funcionam em uma democracia e tal professor deve respeito ao que foi decidido em assembléia, tenha ele participado dela ou não. Mas por outro lado, ao longo da história, consideramos como “heróis” indivíduos que se levantaram contra decisões da maioria, por considerá-las injustas – não me parece o caso, mas a humanidade sempre se enganou a respeito de coisas parecidas.  
            Porém, um professor que decide dar aulas durante o período acadêmico, à revelia da suspensão do calendário acadêmico, acaba por prejudicar aos alunos, uma vez que este terá ainda outras disciplinas para terminar quando do fim da greve. Sem contar que o aluno deverá aceitar essa decisão do professor por sua figura de autoridade e por temor de ser “marcado”. E aqui há um dano sério à liberdade do aluno.
      Assim, nos parece totalmente justo e justificado proibir o “fura-greve” de exercer atividades de ensino (lembrando que atividades de pesquisa, orientações e algumas aulas são permitidas, mediante informa à ADUFOP) – e isso eu digo àqueles que como eu apóiam a greve e se sentem ofendidos com os “fura-greve”.
     Ora, mas se estamos justificados a fazer isso, estariam outros grupos que se organizassem democraticamente também justificados a, por exemplo, obrigar os professores a retornarem às aulas, pois isto lhes parece justo? Se os discentes houvessem, ao invés de apoiado a greve, ido contra ela por pensar que ela fere seus direitos, poderíamos retirar os professores de seus lares e sob gritos levá-los até dentro da sala de aula? 
        É obvio que não pela lei, já que há o direito à greve por parte dos professores, enquanto não se pode forçar seu fim senão por alguma decisão judicial. Mas enquanto falamos de liberdade e justiça em um sentido mais profundo que nem sempre coaduna com o que está expresso na constituição – várias vezes considerada injusta e por isso mutável –, podemos perguntar por um direito mais amplo de qualquer pessoa fazer aquilo que bem entenda, desde que isso não cause danos a outrem, o que parece totalmente defensável.
         E aqui há uma grande dificuldade de avaliarmos quem tem mais direito, uma vez que a prática generalizada de “furar” a greve pode causar grandes danos ao movimento e aos alunos, como também a imposição da greve por sobre os “fura-greve” causa também um dano à sua liberdade pessoal.       
          A única saída que consigo pensar para isso é o diálogo com os fura-greve, de forma a tentar convencê-los – que na realidade é a diretriz que o Comitê de Greve se propôs a seguir. Porém, caso contrário, precisaríamos esquecer os problemas filosóficos, aceitar que podemos errar, e aceitar a injustiça que é imanente à democracia majoritária: talvez nunca ao longo de sua história tenha havido consenso a respeito de nenhuma de suas decisões e isto significa, em ultima instância, que sempre houve quem tivesse sua liberdade diminuída em relação a algum assunto. Porém, não conheço outra forma de se modificar as coisas.
Neste caso, que vença a democracia... E neste momento, ser democrático é respeitar o que foi e for decidido nas Assembléias de Greve.        

(Agradeço aos grandes amigos Aluízio Couto e Sagid Salles pelos questionamentos – na verdade grande parte dos que estão acima – que deram fruto a esse texto, com o qual eles provavelmente não concordarão. E assim discordaremos mais uma vez, e mais uma vez discutiremos. Mas é assim mesmo que se faz filosofia seriamente: talvez a maior demonstração de respeito à Liberdade e à Tolerância que já tenha existido!)

(Ouro Preto, 20 de maio de 2012)

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Dialética da imparcialidade

Sem certa objetividade, certa assimetria a favor do objeto (primazia do objeto), todo conhecimento seria mera tautologia, mera repetição (parafraseando Adorno). Se tudo é transferência do sujeito por sobre o objeto, é difícil até imaginar como seria possível qualquer formação de uma frase... Isto sem contar, que defender uma total parcialidade significa defender ou a possibilidade de um sujeito transcendental, algum tipo de essência humana, ou, pelo menos, um sujeito se dê de forma não cultural, fechado em si mesmo, talvez já predefinido pela genética (o que também não é algo que transcenda menos a experiência)... Uma vez que, se não fosse assim, uma coisa anularia a outra: se há um tipo de objetividade que influencia na formação do individuo, pra onde iria essa objetividade na hora em que o conhecimento está sendo construído? Porém, supor que o ambiente (o objeto, portanto) não influencia na formação do indivíduo é excluir a realidade, uma vez que há muitos exemplos de que subjetividade e sociedade se interpenetram: meninos-lobos, Kasper Hauser, gêmeos, etc.
Há sim, portanto, certo tipo de objetividade, o que torna possível um tipo restrito de imparcialidade: notadamente, aquela em que a pessoa aceita ou até mesmo pensa por contra própria, algo que vá além de seu ponto de vista, visões contrárias, por vezes melhores, e que sirvam para ela própria mudar de opinião. Há de existir certa objetividade/imparcialidade ou não seria possível o pensamento dialético. O que, perceptivelmente, existe.
Que isso não signifique que a imparcialidade como um todo, utópica, jornalística, exista; especialmente sem boa vontade e sem uma grande dose de vaidade – o que, em última instância, nem nos santos... Claro que há algo de subjetivo (e, portanto, de constructo socio-biológico), da constituição física e mental, do “estomago” como diria Nietzsche, na formação dos juízos de gosto, na eticidade inerente à pessoa, nas escolhas, nos pontos em que não se arreda o pé, “no quanto de verdade a pessoa agüenta”, na tendência política, etc. Mas isso não deve significar a impossibilidade da dialética, ou seja, do pensamento, da educação e da transformação social.
A questão é que, numa sociedade verdadeiramente democrática e racional, essas irracionalidades (o subjetivo, corpóreo, o “pessoal”) deveriam vir à tona antes de qualquer exposição ou defesa pública de opiniões, e não, ao invés disso, ser mascarada sob a aparência de objetiva e imparcial. Mas, quem é que nota que não está sendo imparcial quando se é parcial? 
 “Conhece-te a ti mesmo”, diria Sócrates. Isto deveria significar (para educadores – construtores da mudança): “conheça seu próprio corpo, suas próprias paixões, sua subjetividade” e, somente depois, “tente pensar de forma não egoísta e preconceituosa... objetiva, enfim”.   


(Ouro Preto, 29 de setembro de 2011)